Eu não tinha uma vida devassa com Angélica, tinha?
Creio que não. A única coisa errada que fazíamos era beber além da conta nos
sábados e domingos e quebrar o pau. As nossas brigas tinham apenas um fim
último: reacender as nossas paixões carnais, pois, quando fazíamos as pazes,
transávamos feito loucos – duas, três, sete vezes.
Eu gostava de tudo em Angélica, mas, como todo sujeito
ranzinza, havia horas que a sua presença me incomodava. Quando ela disse que
iria frequentar uma igreja, entrar num caminho de luz, confesso que fiquei
muito feliz: ela estava prestes a me dar duas ou três horas de folga da sua
presença toda vez que fosse para um templo religioso. Mas, quando ir à igreja
deixou de ser uma virtude para tornar-se um vício, eu vi que estava
completamente fodido.
– Você está com Jesus ou com Satanás, Batista?
– Com Jesus.
– Então vamos comigo à igreja...
– Hoje não...
– Então você não está com Jesus, e quem não está com
Jesus, está com Satanás...
– Olha, Angélica, não estou nem com um, nem com outro:
estou com a Razão... – Eu tinha ouvido alguém responder essa frase numa
entrevista. Anotei. Achei que nunca fosse conseguir usar.
Mas o negócio começou a complicar mesmo para o meu
lado quando Angélica começou a implicar com a nossa TV de 75 polegadas: a TV
não era mais TV, um eletrodoméstico inventado por John Logie Baird para nos
livrar do tédio e da solidão. A TV tinha se tornado o portal de Satã. É por
meio da TV que Satã fala conosco. Por isso o mundo está perdido, cheio de
assassinos, ladrões e políticos corruptos.
– Vou levar a televisão para a igreja – ela
sentenciou.
– Para quê?
– Para sacrificá-la no altar.
– Sacrificá-la no altar? Que diabo é isso?
– O bispo sempre nos pede para sacrificar aquilo que
atrapalha a nossa vida. Toda vez que ele diz isso, eu penso na nossa televisão.
Você está com Jesus ou com Satanás?
– Se a TV é de Satanás, então estou com ele...
Angélica chorou.
– Vou levá-la mesmo assim. Se você não deixar, vou
embora...
– Pode ir – eu disse. Não iria deixar um lobo vestido
em pele de cordeiro levar o fruto de muito trabalho e aporrinhação: só de
parcelas, foram vinte!
Angélica saiu de casa, e sofri feito um condenado. Nem
de assistir à TV, aquilo que eu mais amava, tinha vontade. Um mês depois, soube
que ela estava morando na casa do bispo. Fui até a igreja dele. A igreja não
era nenhuma capelinha, era um templo enorme, gigantesco. Senti-me intimidado,
respirei fundo, entrei. Havia mais de dez pastores, mais de vinte obreiros e
mais de mil fiéis na igreja. Resolvi sentar-me num dos bancos e assistir a um
dos inúmeros cultos diários.
– Você está com Jesus ou com Satanás? – disse o bispo,
lá de cima do altar.
– Com Jesus! – gritaram os fiéis em uma só voz.
De repente apareceu Angélica lá em cima do altar.
Estava vestida com uma blusa branca e uma saia azul que passava dos joelhos.
Seu cabelo estava preso num rabo de cavalo petrificado, duro de tanto gel.
Debaixo de seu braço tinha uma Bíblia. Ela chegou, falou algo no ouvido do
bispo e sentou-se em uma das cadeiras que havia em cima do altar. Quando o
bispo parou de pregar, ela levantou-se, foi ao púlpito e começou a falar sua
vida antes de aceitar Jesus.
– Eu vivia uma vida devassa, na mais completa
escuridão... – disse ela, referindo-se à vida que teve comigo.
Não me segurei. Levantei-me e fui em sua direção. Uns
quatro obreiros apareceram imediatamente, me imobilizaram e tudo. Me jogaram
para fora da igreja como um dono do bar joga um bêbado nojento na rua.
Voltei triste e cabisbaixo para casa. Tive vontade de
vestir-me de preto, esperar a noite e me jogar numa BR. Mas não fiz isso.
Voltei à igreja no dia seguinte e consegui falar com a Angélica, disse que se
ela não voltasse para casa eu venderia todos os nossos móveis e
eletrodomésticos e até a nossa casa para sacrificar todo o dinheiro no altar;
se ela não voltasse comigo, tudo ia virar sacrifício. Angélica deu de ombros.
Fiz o que falei, vendi os móveis, os eletrodomésticos e por fim a casa. Peguei
todo o dinheiro, fui numa favela e joguei todas as notas para o ar.
O caos se fez. Alguns homens brigaram por uma nota de
cem reais. Uma mulher arranhou o rosto de uma menina para pegar algumas notas
de cinquenta. Nisto, eu vi um velho, sentado à porta de um barraco, me olhando
com um cansaço mais profundo que o meu. No seu silêncio, vi meu vazio: além de
ficar sem dinheiro, fui responsável por agressões físicas e psicológicas entre
eles – essa culpa, carregaria sozinho para o resto da vida.
Fui morar na frente do templo, fiz uma casinha de
papelão e madeira. Só levei uma pequena mala de roupas, que eu cuidava como a
própria vida para ninguém pegar, sobretudo a roupa e os calçados que usei no
dia do meu casamento com a Jaqueline, uma calça de linho, um terno, uma gravata,
um par de sapatos caríssimos e uma faca.
Meu corpo, antes acostumado ao conforto de minha sala,
aprendeu a dormir naquele chão frio e muitas vezes cheirando a mijo. Comia o
que encontrava nos lixos, e quase todas as noites assistia aos cultos do bispo.
Ao contrário de muitos pastores, ele não gritava. Sua voz era calma, falava com
pausas profundas, dizia, irmãos, Deus não que o seu pior, quer o que você tem
de melhor; porque, só quando você oferece aquilo que dói perder, é que você
prova que o Reino dos Céus é mais importante do que você, do que tudo, e então
Ele te devolve mil vezes mais.
Os fiéis entravam na dele – não todos, vale observar,
alguns se viravam e saíam desta arapuca. Enquanto isso, ele ajustava a gravata
cara, de seda, o brilho do seu anel de ouro cintilava.
Eu via essas coisas e olhava para Angélica,
perguntando com a minha expressão: está certo o que vocês andam fazendo com as
pessoas? No começo ela me ignorava, fingia não me ver ali, olhando para ela com
um ar inquiridor. Mas com o tempo a minha presença passou a incomodá-la. Quando
ela pregava a Palavra, e olhava para mim, dizia: “afaste-se, ó Satanás!” Eu não
me afastava, é claro.
Com o tempo os pastores e os obreiros começaram a me
barrar na porta. Eu fazia um escândalo, os fiéis ficavam compadecidos, eles que
me deixavam entrar. Comecei a mendigar também, e tudo o que eu ganhava
gastava com pinga. Às vezes eu entrava bêbado no culto. Olhava para ela, não
tirava o meu olhar. Eu dizia: “está vendo, está vendo o que vocês fazem com as
pessoas?” Numa noite, vi que ela estava saindo sozinha em seu carro de luxo.
Ela não percebeu que eu a vigiava. Aproximei-me do seu carro, bati no vidro,
ela abriu pensando que fosse algum outro conhecido. Quando me viu, todo
maltrapilho, levou um susto, disse:
– Afaste-se de mim, Satanás!
Não me afastei. Ela arrancou com o seu automóvel,
grudei-me nele, acho que consegui ficar agarrado em seu carro por um
quarteirão. Quando não aguentei mais, abri a minha mão e rolei no asfalto.
Fiquei todo esfolado.
Fui ao culto na noite seguinte, todo desfigurado. O
bispo falou da transfiguração de Jesus, depois falou sobre as artimanhas de
Satanás. Ninguém na igreja, nem os pastores, nem os obreiros, ofereceram-me
curativos. E o bispo nunca usava a parábola do Bom Samaritano em seus
sermões.
Dias depois, quando sarei dos machucados, decidi usar
a roupa que me casei com Angélica e fui para o culto. Os obreiros nem me
reconheceram, de tão bonito que eu estava. Eles só não suspeitaram da faca fria
que eu carregava na cintura... Naquela noite, não hesitei. Quando o bispo
chamou todos para o altar para entregar seus envelopes com o sacrifício dentro,
eu entrei na fila daquele bando de otários e fui. No altar, ele não me reconheceu: só viu o
homem com um envelope com “dinheiro” dentro. Sorriu o seu sorriso profissional,
que se desfez quando viu a minha faca afiadíssima.
Matei o bispo. Não senti nem alivio nem culpa, apenas
o vazio de um sacrifício finalmente consumado. Os obreiros me imobilizaram, a
policia veio, fui preso e condenado. Angélica até hoje não me perdoou e não
veio me visitar na penitenciária. Até entendo.
Quando um pastor capelão vem aqui e começa a pregar a
palavra de Deus para os detentos, eu sempre assisto. Quando ele pergunta se
estamos com Jesus ou com Satanás, eu brado, bem alto para todo mundo ouvir:
– Com Jesus, pastor!
