terça-feira, 27 de janeiro de 2026

anotação para o conto que pode ser chamado de: o segundo andar?

 "O fulano só fala com a gente do segundo andar", ouvi alguém dizer. 

Imediatamente, me veio uma história para contar: a de uma mulher que só fala com um de seus empregados da sacada de sua mansão...

Que história pode dar?


Anotações de Glauber da Rocha.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Com os dentes que ainda me restam



A vida foi tirando meus dentes, aos poucos, um por um, dois por dois, três por três. Eles, tão brancos antes, tornaram-se amarelos – amarelos por fora e negros por dentro, nos buracos – de tanto cigarro, que muito fumei e ainda fumo, com gosto.

A bebida ajudou também, não somente enfraquecendo-os, mas me colocando em confusões nas quais somente eu apanhei; dando conta, depois, nos hospitais, a falta de dois ou três deles. Hoje, lembrando desses fatos, me pergunto: valeu à pena ter brigado por mulheres que nem lembro mais o nome?

Da primeira vez eu estava na zona, acreditando em tudo o que a puta me dizia – seria ela espanhola de verdade ou não passava de uma paraguaia? Nova, não devia ter 30 anos. Eu não tinha interesse algum em levá-la para um dos quartos, mas ela foi chegando, falando coisas excitantes, mostrou os seios nos decotes, colocou a minha mão sobre eles. Perguntei:

– Quanto?

No quarto foi me falando que queria um homem, um namorado, para poder chamá-lo de amor; dormir, todas as noites, abraçadinha... Acabei voltando: o poeta aqui tornou-se seu cliente fiel.

Gostava de ouvir o que ela falava, e acreditava em tudo. Não por ser verdade, mas muito mais porque a minha vida estava tão sem graça que eu precisava acreditar em algo, mesmo que fosse mentira. Eram palavras doces, ternas e às vezes animalescas, excitantes. Ela dizia: meu amor, meu homem, meu animal feroz, vai, vai, vai José!

Vê-la era melhor do que ficar em casa lendo Olavo Bilac, Ferreira Gullar, Leminski e outros poetas que gostava. Era melhor do que escrever poesia. Do que ouvir Fagner e Zé Ramalho.

Num dia, um outro cliente dela arrombou a porta, um homem magro com boné na cabeça, estava bêbado. Veio para cima de mim. Meu pau ainda estava duro. Levantei rapidamente, levei um soco, caí no chão. O sangue ferveu. Me perguntei: por que acreditei nessa mulher?

Levantei de novo e bati nele até ele cair no chão, inconsciente. Quando terminei, pisei no seu pescoço com força: quem ele pensava que era?

A prostituta me segurou para não matá-lo:

– O que é? Você ama ele também? Quantos mais aqui você ama? Todos?

Ela chorou, me envergonhei.

Depois, sentindo a falta de dois dentes da frente, resmunguei:

“Meus dentes....”

Me vesti e saí do quarto. Voltei para a entrada do prostíbulo, para falar com a dona daquele puteiro, perguntar quem ia arcar com as despesas no dentista. A cafetina deu de ombros: que o cara pagasse, ou a puta que estava comigo no quarto.

Olhei para ela e comecei a quebrar tudo o que vi pela frente. Três sujeitos se levantaram para me segurar. Investi contra eles, fui imobilizado. Luzes de sirene surgiram do lado de fora, vindos da rua escura.

– Prendam este vagabundo! – disse a dona do prostíbulo. – Ele quebrou todo meu bar!

Antes de me jogarem no camburão, deram uma cacetada no meu lombo. Na delegacia, tive que contar toda a história para o delegado, que me liberou somente no dia seguinte. Porque agora não tinha os dentes da frente, perdi meu serviço de garçom.

Como já disse, eu era um poeta. Não desses poetas com livros publicados e tudo, mas alguém que lia os grandes poetas e tentava imitá-los a meu modo. Mas, como poesia não compra sapatos (como diz um grande poeta douradense), tive que procurar outro trabalho.

Arranjei um como ajudante de pedreiro e, quando recebi meu primeiro salário, fui ao dentista, fazer o orçamento: eu precisava voltar à minha profissão, ser servente de pedreiro cansa demais. O dentista orçou: três mil barões! Vi que tinha que economizar. A primeira atitude que tomei foi parar de fumar cigarro nacional, e comecei a comprar o paraguaio, que é uma bosta.

– Espanhola ou paraguaia?

Não conseguia juntar dinheiro para arrumar meus dentes, porque acabava caindo nos bares da vida. Desisti. Em vez de lutar, sonhava com o dia em que alguém tivesse pena da minha situação e escrevesse uma carta para esses programas de TV onde o escolhido da vez ganha aquilo que mais sonha.

Num dia, num bar fuleira, desses que o teto é de eternit, o banheiro uma espécie de fossa, uma gorda dos peitos caídos veio para meu lado. Ela não tinha os dois dentes da frente. Eu estava diante da máquina de música, gastando meu dinheiro suado... Bebia uma cerveja atrás da outra e fumava meu cigarro paraguaio. Enquanto isso, ela pagava para ouvir músicas do Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz.

No começo me irritei com ela, mas depois da sétima garrafa já chamava-a de amor, quando dançava coladinho com ela os pagodes.

A cerveja e o pagode fizeram crescer em mim um verso. Pedi uma folha de caderno e uma caneta para a dona do bar, que era gorda também e tinha os peitos enormes – não usava sutiã, só uma camiseta branca e velha, dava para ver os dois bicões dos peitos dela.

Ela pegou o seu caderno onde anotava os fiados e arrancou uma folha. Como a caneta dela ficava amarrada num fio de náilon, tive que escrever ali mesmo sobre seu balcão. Escrevi uns versinhos para a mulher que estava comigo e entreguei para ela ler. Com muita dificuldade, Dinalva, que era semianalfabeta, leu:

 

Mulher faceira

Sabe dançar,

Dance, com alegria,

Até o dia raiar...

 

Ainda na madrugada a dentro, a dona do bar me ofereceu alguns pedaços das cana-de-açúcar que estava comendo num prato. Isso foi logo depois de eu colocar algumas moedas na máquina de música para ouvir Fagner.  Quando eu era criança, meu avô tinha um canavial no sítio dele, que produzia cana-de-açúcar docinha. Mas essas que a dona do bar me ofereceu de graça me pareciam duras e amargas. Era meu paladar e meus dentes? Não quis conformar com ela, o que é dado não pode ser criticado, preferi escrever um poema. Saiu:

 

as canções de Fagner

 

cana amarga

dura

contigo não podem mais os meus dentes

não assobio.

 

arrasto os chinelos

segurando a gorda

enquanto não dói o rim

com sua pedra maldita.

 

o meu fígado já era

as canções de Fagner já não fazem mais tanto sentido:

o que me importa é o bico negro

e grande

desta gorda.

 

olhai as estrelas, dizia um grande poeta.

as canções de Fagner

dos meus olhos

não tiram mais nenhuma gota!

           

Quando o dia raiou, seu ex-marido apareceu. Chegou violento, falou com ela, começaram a discutir. De repente ele deu um murro na cara da Dinalva e ela foi pro chão. Não me segurei, parti para cima dele: homem que bate em mulher merece apanhar para aprender a respeitá-las, a ter respeito por elas. Bati sim; se estou errado, me perdoe. Quando parei de bater no ex-marido dela, acabei me distraindo. Foi quando o desgraçado me acertou em cheio, na boca. Caí no chão, atordoado. Senti vários dentes caírem...

Respirei fundo, puxei força não sei de onde. E, com os dentes que ainda me restam, abocanhei a sua orelha, arrancando-a.

 

Glauber da Rocha, in: Com os Dentes Que Ainda Me Restam (contos, editora oito e meio)

 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O amante


– Alô?

– Oi. É o Wladimir?

– Sim.

– Wladimir, você lê cartas?

– Sim, leio.

– Gostaria de agendar uma consulta...

– Sim.

– Você tem horário disponível ainda hoje?

– Tenho sim.

– Ok.

Marquei o horário de Maria Eduarda e desliguei o telefone celular. À noite, ela apareceu em meu apartamento. Uma mulher morena, olhos castanhos, cabelos encaracolados, linda. Pedi para ela sentar-se à mesa de jogo, que ficava na sala. Ela sentou-se, eu acendi uma vela amarela, um incenso e abri as cartas. Na mesa real, a dama cercada por um chicote, uma âncora e uma cruz; de costas para ela, o cavaleiro cercado pela criança, pela casa e pelo cachorro.

– Você é casada...

– Sim.

– Mas você não ama seu esposo...

– Não.

– Você ama seu amante!

– Sim! Como você sabe?

– As cartas... Nunca mentem... Mas é o seguinte: ele não largará a esposa e os filhos para ficar com você.

– Não?

– Não. Contente-se em ser apenas a outra.

– Mas eu amo tanto ele...

– Com você é só uma aventura...

– Cretino...

– A condição é essa, de amante. Vai querer?

– Não, não... Acho melhor não... Acho melhor esquecê-lo.

– Bom... Meu conselho é aproveitar... Como é o nome dele?

– Roberto.

– Então, se você gosta desse Roberto, aproveite... Apenas tome cuidado com seu esposo... Ele é muito possessivo, muito ciumento... É capaz de matar por tua causa...

– Você acha, Wladimir?

– Não duvide. Um homem possessivo é capaz de tudo...E o que quer que ele faça, você sabe que todos ficarão do lado dele, não sabe?

Ela me olhou com um olhar triste.

– Gostaria de saber de mais alguma coisa?

– Não. Está bom. Obrigada – disse ela, tirando o dinheiro da bolsa.

Anotei o jogo de Maria Eduarda em meu caderno, apaguei o fogo da vela e fechei as cartas. Quando ela foi embora, ao rever as anotações me perguntei quem seria a raposa rondando-a?

***

 

Eu nem precisava das cartas para a maior parte do que eu disse. A pessoa difícil, impossível, geralmente é um troféu. É normal se apaixonarem. Não é à pessoa em si que eles entregam o coração, mas ao grau de dificuldade que se impõem. Tanto é verdade que, muitas vezes, ao conquistarem o coração de alguém, logo perdem o interesse, o amor, a paixão. Dificilmente acontece da gente se apaixonar por alguém fácil, disponível, previsível. O amante de Maria Eduarda era isso: o troféu que ela talvez um dia pudesse ter... Enquanto seu esposo, a medalha pendurada na parede da sala de casa...

Um dia mandei uma mensagem de texto para Maria Eduarda perguntando se ela havia decidido se continuaria vivendo uma aventura com seu amante ou não. Maria Eduarda respondeu que não sabia ainda, que era muito difícil ficar com um homem que amava sabendo que não o teria para ela, que a expectativa era imprescindível para uma relação etc. Falou-me que estava sofrendo de amor, que vira Roberto dias atrás, que ele mandou uma mensagem em seu celular convidando-a para ir num motel.

Perguntei-lhe como eles se conheceram. Roberto era gerente da loja de joias onde ela trabalhava antes de se casar. No fim de um expediente, ele a convidou para tomar um café ali perto da loja. Maria Eduarda aceitou o convite e, a partir de então, começaram a conversar com mais intimidade no trabalho. Ela foi se envolvendo com Roberto e acabou num motel com ele.

Continuei conversando com Maria Eduarda por texto. O assunto era sempre o mesmo: Roberto. Com o tempo ela foi me falando sobre a sua vida conjugal: odiava seu esposo. Estava com ele ainda porque era dependente. Ele dava dinheiro, ele dava presentes, ele amava-a. Estou chamando seu esposo de ele porque era assim que ela se referia quando falava dele. Nunca dizia o seu nome, mas apenas “ele”. Dizia: depois conversamos, ele chegou; não suporto mais ele; se ele morresse eu seria a mulher mais feliz de Campo Grande! Ele... Ele... Ele...

Uma noite, Maria Eduarda me falou que caiu em tentação e foi mais uma vez com Roberto em um motel.

– Foi bom?

– Maravilhoso... Nem me lembrei que era casada...

Atitudes como essa muitas vezes me fazem perder a fé na humanidade e a confiança no ser humano – nem sei por que ainda entrego meu coração. Por que tantas têm coragem de casar com quem não amam? Por que enganam a si mesmas e a seus esposos? Não foi difícil descobrir quem era o marido de Maria Eduarda: bastou digitar seu nome completo no Facebook para saber tudo da vida dela. No seu perfil estava escrito “casada com Jorge Cavanha”. No seu álbum de fotos, ele aparecia com Maria Eduarda, ora beijando-a, ora abraçando-a. Nas legendas das fotos ele escrevia: “eu te amo”, “você é o amor da minha vida”, “não saberia viver sem ti”, “nunca encontrarei alguém como você”, “você é especial para mim. Meu tudo” e assim por diante.

Jorge tinha uma cara malvada. Na maioria das fotos em que estava sozinho, ele aparecia com os braços cruzados, encarando. Olhei bem no fundo dos olhos dele e vi um assassino em potencial, alguém capaz de tudo se traído.

Não me intimidei e mandei uma mensagem de texto para Maria Eduarda dizendo que se ela não fosse para a cama comigo eu iria contar ao seu esposo seu caso com o amante Roberto. Eu mostraria a mensagem da Maria Eduarda sobre ele, dizendo que foi para o motel com o maldito, que foi bom e que nem lembrou de que era casada quando transou com ele...

– O quê?!

– Isso mesmo que você leu. Ou vem aqui, ou conto tudo para seu esposo...

– Você nem sabe quem é meu esposo...

– Minha filha, o Facebook sabe tudo. Quase tanto quanto as cartas.

Desligou o telefone. Esperei meia hora para retornar a ligação.

– Você faz isso com todas as suas clientes?

Meu coração bateu forte. Medo ou excitação? Ter o poder de levar para cama uma mulher como ela era um afrodisíaco danado.

– Não, nunca fiz. Estou apaixonado. Você é a primeira e será a última.

– Cretino! Vou te denunciar!

– Para quem?

– Para o sindicato.

– Que sindicato? O sindicato dos cartomantes?

– Denuncio para a polícia, então.

– Pode denunciar, não me importo. Mas seu esposo ficará sabendo.

– Cretino, mau caráter!

– Te espero até amanhã à noite.

 

***

 

Maria Eduarda veio conforme o combinado. Xingou-me de nomes terríveis, praguejou:

– Tomara que Deus tire esse seu dom, Wladimir, de ler as cartas. Um dom bonito como esse não pode pertencer a uma pessoa tão feia como você, cretino. – xingava enquanto insinuava se despir.

De repente, percebi que aquela trepada seria péssima e não valeria o risco. E se o marido corno e chifrudo descobrisse? Simulei uma vergonha sincera. Dessas, de cortar o coração.

– Você acha mesmo que seria capaz disso? Foi essa forma que encontrei para te ver. Você é tão linda...

Ela se sentou no sofá, aliviada. Depois riu, exibindo seus dentes claríssimos.

– Há tantas formas para convidar uma pessoa para nossa casa e você encontrou só essa?

– Me desculpa. – Eu sabia como fazer uma expressão triste.

– Sendo assim, está desculpado.

– Bom, agora, se quiser ir, pode ir...

– Mas já? Que espécie de homem é você?

Ficamos conversando na sala. Ela estava muito relaxada e tinha se preparado tanto para enfrentar seu destino que sua voz exalava, inclusive, compaixão. Nossa conversa foi tomando um rumo erótico e, quando vi, estávamos na minha cama. Maria Eduarda era uma mulher carinhosa, romântica.

– Quando vamos nos ver novamente? – perguntei-lhe.

– Não sei. Combinamos.

 

***

 

Porque eu sabia que Maria Eduarda só gostava de quem não gostava dela, no nosso terceiro encontro dei um fim, rejeitando-a.

– Meu Deus! Primeiro você me seduz, me fez esquecer aquele imbecil do Roberto, e agora me dá um fora? Que tipo de homem é você, Wladimir? Um sangue-frio?

– Não quero problemas. Queria apenas sexo. Você é casada. Devia respeitar seu marido.

– E aquela história de que estava apaixonado e tudo?

Não respondi.

Maria Eduarda desceu as escadas chorando. Durante uma semana me bombardeou com mensagens de texto. Pediu-me só mais uma noite de amor, a última. Concedi. Ela veio ao meu apartamento, transamos, disse que me amava.

O que não era verdade. Ela amava a aventura, o proibido, o impossível. Para mantê-la, eu precisava ser como o Jorge: inalcançável. Só assim ficaria no controle, só assim ela seria minha quando eu quisesse, se quisesse.

Mas daí, o corno veio atrás, bateu na porta, primeiro, quase educado, depois, dando socos e morros. Abri, e ganhei o tiro. Acordei três dias depois na UTI. Quase morrera com a bala que o esposo de Maria Eduarda deu no meu peito. Sempre que estava perto de algum perigo as cartas me avisavam, só que daquela vez, não: a praga de Maria Eduarda valera quando rogou a Deus para tirar o dom bonito de mim?

Recebi a visita de meu irmão, me trouxe roupas, meu telefone celular, o meu baralho cigano. Agradeci, ele ficou um pouco comigo, conversamos, me pediu para ter mais cuidado com as mulheres dos outros e foi embora.

A enfermeira apareceu. Era uma jovem ruiva que usava um piercing no nariz. Chamava-se Karen. Enquanto trocava meu curativo, seus olhos pousaram no baralho Cigano que eu deixei na mesa de cabeceira.

“O senhor lê?”, ela perguntou, curiosa e cética, como muitas.

“Sim”, a garganta seca.

Abri o jogo sobre os lençóis. A Dama, o Chicote, a Cruz. O Cavaleiro de costas – alguém já disse que o homem se casa apenas para fazer da esposa, das filhas e do cachorro prisioneiros?


Glauber da Rocha, in: Com os Dentes Que Ainda Me Restam (editora oito e meio, 2018, R.J.)

 

sábado, 3 de janeiro de 2026

Como vencer na vida - conto

 

Como vencer na vida

 

A fossa lá de casa entupiu e eu, único desempregado em casa, tive que resolver o problema. Com muita força tirei a tampa da fossa, peguei um arame e comecei a movimentá-lo para frente e para trás. Nesse processo todo acabei engolindo merda. Passei a camisa na boca, cuspi, tentando me livrar daquele gosto horrível. Mas não teve jeito: uma vez que você acaba engolindo merda, o paladar fica impregnado por um bom tempo; e por mais que você cuspa, a impressão do gosto fica gravada na gente como que para sempre.

Desentupi. Contei meu feito para um vizinho, que passou a me indicar para a vizinhança quando um e outro vizinho precisavam desentupir a fossa de casa. De repente, veio gente de tudo quanto é buraco contratar meus serviços. Como estava desempregado, não pude recusar e comecei a ganhar dinheiro desentupindo fossa. Minha mãe, que viu meu sofrimento para me formar na faculdade de administração de empresas, me falava para parar.

– Não posso, mãe.

Mãe é sempre uma tentação na vida da gente: a dificuldade, para elas, é algo que não compensa superar. Enquanto desentupia fossas, deixava meus currículos nas empresas, conversava com os empresários, ouvia promessas de que iriam me ligar. No entanto, cadê que me ligavam? Eu ficava enfezado, mais nervoso que um homem sem amor. Nas minhas orações, eu blasfemava.

– É isso que o Senhor quer para o seu filho, viver na merda? Se sim, até quando? Para sempre? Que tipo de Deus é o Senhor? Um Deus das desgraças? Que diabo eu fiz para Ti?

Deus parecia surdo, cego e mudo. E eu continuava na merda, vivendo da merda, sonhando com a merda.

Quando vi, estava parecido com esses sujeitos que trabalham em oficinas mecânicas em beira de esquina, desses que andam sempre sujo, fedendo, com cigarro paraguaio na boca, encardido. Me transformei num miserável, isso sim.

E sem mulher. O cheiro de esgoto e cloro não perdiam para perfume nenhum. O fedor era como uma nuvem suja me acompanhando. Melhor: uma barreira invisível que elas percebiam. Você sabe, as pessoas se desviam da parte podre da vida, por isso não desentopem seus próprios esgotos. E eu era a personificação disto – qual mulher iria querer um homem que fede à merda a metros de distância?

Fui ficando chateado com a vida. Mas o que me fez mesmo tomar a melhor decisão da minha existência foi meus parentes. Passar os finais de semana na casa de meu avô tornou-se uma tortura para mim. Ele mesmo era o primeiro, que me olhava com amargura. Na época, eu não conseguia entender que ele queria o meu bem. Do jeito dele, é claro. Mas desejava o meu bem. Não queria que meus anos de sacrifício fossem perdidos assim. Do seu jeito, resmungava:

“Um homem diplomado fedendo a esgoto é o fim...”

Alguns tios, primos e até mesmo meus sobrinhos não tinham respeito algum por mim. Certa vez, um deles, que mal sabia falar, me disse:

– Você é um derrotado, tio João.

– O quê?!

– Um derrotado.

– Quem disse isso para você? – perguntei, embasbacado.

– Meu pai – respondeu o menino.

Guardei bem guardada essa ofensa. Por vários dias ela ficou cozinhando no meu udurme. Você é um derrotado, ouvia o meu sobrinho dizer a quase todo momento, sobretudo diante dos esgotos mais difíceis de desentupir. Era como um veneno, mas que não mata. Como não me matava, me fortalecia. Já vi uma frase que dizia assim: o que não me mata, me fortalece. Me perguntei: estou na merda ou diante de uma grande oportunidade na vida?

Resolvi sair dela sem esperar um emprego como administrador, e parei de gastar qualquer centavo à toa. Até algumas coisas que eu achava que merecia, como comer uma pizza ou beber cerveja no fim de semana, deixei de fazer. E juntava cada centavo como quem junta a própria dignidade. Além disso, estudava sobre o negócio de esgotos, colocava no papel o investimento, calculava lucros, perseguia as falhas dos concorrentes.

De dia, desentupia fossas, de noite, planejava. Três anos depois, fundei a minha companhia de esgotos. Prosperei, comprei carro, casa, viajei, conheci tudo quanto é tipo de mulher, de vinho – de Cabernet Sauvignon ao Vinho do Porto. Fiz amizades com quem jamais imaginava que um dia iria fazer, me tornei amigo de alguns homens mais ricos do Brasil e do mundo. Fui feliz e casei.

Tive dois filhos. E por mais que eu tenha dinheiro para fazer o que quiser, inclusive rasgar e jogar no lixo, não facilito nenhum pouco a vida para eles. Não dou nada de graça. Nem empresto dinheiro, mas ofereço oportunidades.

Primeiro, as ruins, que é trabalhar como todos os desentupidores de fossa de minha companhia, a fim de comerem merda que nem o pai e aprender a dar o valor no meu e no dinheiro deles; depois, dou as oportunidades boas. Se trabalham, ganham. Se não trabalham, não ganham.

E assim é a vida. Nada cai do céu. O segredo de como vencer na vida é esse.  Encarar de frente o que há de pior, pegar o que ele nos oferece – mesmo que seja apenas a força para não se afogar – e usar isso como alicerce para construir algo melhor. O segredo não é fugir do cheiro, é aprender a transformá-lo em combustível... Ou não é?


Glauber da Rocha - escritor

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

O mundo não sabe de nada


A professora Bárbara olha todo o mundo de cima para baixo. O seu olhar pergunta: o que você sabe? A professora Bárbara sabe mais que todo o mundo. Ela conhece a riqueza e a pobreza, o belo e o feio, a saúde e a doença. Ela sabe de tudo isto, mas o mundo, não.

O mundo não sabe que as pessoas são interesseiras e que muitas delas nos enganam apenas para ter o que é nosso, como dinheiro, corpo e alma. Pessoas vêm e roubam o nosso dinheiro, o nosso corpo, a nossa alma. Elas nem são o Diabo, são pessoas mesmo.

A professora Bárbara ficou milionária ao acertar na loteria. Teve de tudo, perdeu tudo. Hoje encara, novamente, as salas de aula. Continua jogando na loteria e diz que agora sim está preparada para ser rica.

A professora Bárbara olha a diretora da escola e vê que ela não sabe de nada. Olha para os coordenadores e coordenadoras e vê que ninguém sabe de nada. Não sabem de nada os alunos, as alunas, as mães, os pais, os tios e avós.

Ninguém sabe de nada. Só ela, a professora Bárbara, sabe de algo neste mundo.


Da Rocha Silva - Do livro de contos: Entre Aulas e Recreios.

O sacrifício


O sacrifício

 

Eu não tinha uma vida devassa com Angélica, tinha? Creio que não. A única coisa errada que fazíamos era beber além da conta nos sábados e domingos e quebrar o pau. As nossas brigas tinham apenas um fim último: reacender as nossas paixões carnais, pois, quando fazíamos as pazes, transávamos feito loucos – duas, três, sete vezes.

Eu gostava de tudo em Angélica, mas, como todo sujeito ranzinza, havia horas que a sua presença me incomodava. Quando ela disse que iria frequentar uma igreja, entrar num caminho de luz, confesso que fiquei muito feliz: ela estava prestes a me dar duas ou três horas de folga da sua presença toda vez que fosse para um templo religioso. Mas, quando ir à igreja deixou de ser uma virtude para tornar-se um vício, eu vi que estava completamente fodido.

– Você está com Jesus ou com Satanás, Batista?

– Com Jesus.

– Então vamos comigo à igreja...

– Hoje não...

– Então você não está com Jesus, e quem não está com Jesus, está com Satanás...

– Olha, Angélica, não estou nem com um, nem com outro: estou com a Razão... – Eu tinha ouvido alguém responder essa frase numa entrevista. Anotei. Achei que nunca fosse conseguir usar.

Mas o negócio começou a complicar mesmo para o meu lado quando Angélica começou a implicar com a nossa TV de 75 polegadas: a TV não era mais TV, um eletrodoméstico inventado por John Logie Baird para nos livrar do tédio e da solidão. A TV tinha se tornado o portal de Satã. É por meio da TV que Satã fala conosco. Por isso o mundo está perdido, cheio de assassinos, ladrões e políticos corruptos.

– Vou levar a televisão para a igreja – ela sentenciou.

– Para quê?

– Para sacrificá-la no altar.

– Sacrificá-la no altar? Que diabo é isso?

– O bispo sempre nos pede para sacrificar aquilo que atrapalha a nossa vida. Toda vez que ele diz isso, eu penso na nossa televisão. Você está com Jesus ou com Satanás?

– Se a TV é de Satanás, então estou com ele...

Angélica chorou.

– Vou levá-la mesmo assim. Se você não deixar, vou embora...

– Pode ir – eu disse. Não iria deixar um lobo vestido em pele de cordeiro levar o fruto de muito trabalho e aporrinhação: só de parcelas, foram vinte!

Angélica saiu de casa, e sofri feito um condenado. Nem de assistir à TV, aquilo que eu mais amava, tinha vontade. Um mês depois, soube que ela estava morando na casa do bispo. Fui até a igreja dele. A igreja não era nenhuma capelinha, era um templo enorme, gigantesco. Senti-me intimidado, respirei fundo, entrei. Havia mais de dez pastores, mais de vinte obreiros e mais de mil fiéis na igreja. Resolvi sentar-me num dos bancos e assistir a um dos inúmeros cultos diários.

– Você está com Jesus ou com Satanás? – disse o bispo, lá de cima do altar.

– Com Jesus! – gritaram os fiéis em uma só voz.

De repente apareceu Angélica lá em cima do altar. Estava vestida com uma blusa branca e uma saia azul que passava dos joelhos. Seu cabelo estava preso num rabo de cavalo petrificado, duro de tanto gel. Debaixo de seu braço tinha uma Bíblia. Ela chegou, falou algo no ouvido do bispo e sentou-se em uma das cadeiras que havia em cima do altar. Quando o bispo parou de pregar, ela levantou-se, foi ao púlpito e começou a falar sua vida antes de aceitar Jesus.   

– Eu vivia uma vida devassa, na mais completa escuridão... – disse ela, referindo-se à vida que teve comigo.

Não me segurei. Levantei-me e fui em sua direção. Uns quatro obreiros apareceram imediatamente, me imobilizaram e tudo. Me jogaram para fora da igreja como um dono do bar joga um bêbado nojento na rua.

Voltei triste e cabisbaixo para casa. Tive vontade de vestir-me de preto, esperar a noite e me jogar numa BR. Mas não fiz isso. Voltei à igreja no dia seguinte e consegui falar com a Angélica, disse que se ela não voltasse para casa eu venderia todos os nossos móveis e eletrodomésticos e até a nossa casa para sacrificar todo o dinheiro no altar; se ela não voltasse comigo, tudo ia virar sacrifício. Angélica deu de ombros. Fiz o que falei, vendi os móveis, os eletrodomésticos e por fim a casa. Peguei todo o dinheiro, fui numa favela e joguei todas as notas para o ar.

O caos se fez. Alguns homens brigaram por uma nota de cem reais. Uma mulher arranhou o rosto de uma menina para pegar algumas notas de cinquenta. Nisto, eu vi um velho, sentado à porta de um barraco, me olhando com um cansaço mais profundo que o meu. No seu silêncio, vi meu vazio: além de ficar sem dinheiro, fui responsável por agressões físicas e psicológicas entre eles – essa culpa, carregaria sozinho para o resto da vida.

Fui morar na frente do templo, fiz uma casinha de papelão e madeira. Só levei uma pequena mala de roupas, que eu cuidava como a própria vida para ninguém pegar, sobretudo a roupa e os calçados que usei no dia do meu casamento com a Jaqueline, uma calça de linho, um terno, uma gravata, um par de sapatos caríssimos e uma faca.

Meu corpo, antes acostumado ao conforto de minha sala, aprendeu a dormir naquele chão frio e muitas vezes cheirando a mijo. Comia o que encontrava nos lixos, e quase todas as noites assistia aos cultos do bispo. Ao contrário de muitos pastores, ele não gritava. Sua voz era calma, falava com pausas profundas, dizia, irmãos, Deus não que o seu pior, quer o que você tem de melhor; porque, só quando você oferece aquilo que dói perder, é que você prova que o Reino dos Céus é mais importante do que você, do que tudo, e então Ele te devolve mil vezes mais.

Os fiéis entravam na dele – não todos, vale observar, alguns se viravam e saíam desta arapuca. Enquanto isso, ele ajustava a gravata cara, de seda, o brilho do seu anel de ouro cintilava.

Eu via essas coisas e olhava para Angélica, perguntando com a minha expressão: está certo o que vocês andam fazendo com as pessoas? No começo ela me ignorava, fingia não me ver ali, olhando para ela com um ar inquiridor. Mas com o tempo a minha presença passou a incomodá-la. Quando ela pregava a Palavra, e olhava para mim, dizia: “afaste-se, ó Satanás!” Eu não me afastava, é claro.

Com o tempo os pastores e os obreiros começaram a me barrar na porta. Eu fazia um escândalo, os fiéis ficavam compadecidos, eles que me deixavam entrar.  Comecei a mendigar também, e tudo o que eu ganhava gastava com pinga. Às vezes eu entrava bêbado no culto. Olhava para ela, não tirava o meu olhar. Eu dizia: “está vendo, está vendo o que vocês fazem com as pessoas?” Numa noite, vi que ela estava saindo sozinha em seu carro de luxo. Ela não percebeu que eu a vigiava. Aproximei-me do seu carro, bati no vidro, ela abriu pensando que fosse algum outro conhecido. Quando me viu, todo maltrapilho, levou um susto, disse: 

– Afaste-se de mim, Satanás! 

Não me afastei. Ela arrancou com o seu automóvel, grudei-me nele, acho que consegui ficar agarrado em seu carro por um quarteirão. Quando não aguentei mais, abri a minha mão e rolei no asfalto. Fiquei todo esfolado.

Fui ao culto na noite seguinte, todo desfigurado. O bispo falou da transfiguração de Jesus, depois falou sobre as artimanhas de Satanás. Ninguém na igreja, nem os pastores, nem os obreiros, ofereceram-me curativos. E o bispo nunca usava a parábola do Bom Samaritano em seus sermões. 

Dias depois, quando sarei dos machucados, decidi usar a roupa que me casei com Angélica e fui para o culto. Os obreiros nem me reconheceram, de tão bonito que eu estava. Eles só não suspeitaram da faca fria que eu carregava na cintura... Naquela noite, não hesitei. Quando o bispo chamou todos para o altar para entregar seus envelopes com o sacrifício dentro, eu entrei na fila daquele bando de otários e fui.  No altar, ele não me reconheceu: só viu o homem com um envelope com “dinheiro” dentro. Sorriu o seu sorriso profissional, que se desfez quando viu a minha faca afiadíssima.

Matei o bispo. Não senti nem alivio nem culpa, apenas o vazio de um sacrifício finalmente consumado. Os obreiros me imobilizaram, a policia veio, fui preso e condenado. Angélica até hoje não me perdoou e não veio me visitar na penitenciária. Até entendo.

Quando um pastor capelão vem aqui e começa a pregar a palavra de Deus para os detentos, eu sempre assisto. Quando ele pergunta se estamos com Jesus ou com Satanás, eu brado, bem alto para todo mundo ouvir:

– Com Jesus, pastor!

 

 


Glauber Da Rocha, in: Com Os Dentes Que Ainda Me Restam

ESCRITOR

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 "O fulano só fala com a gente do segundo andar", ouvi alguém dizer.  Imediatamente, me veio uma história para contar: a de uma mu...