– Alô?
– Oi. É o Wladimir?
– Sim.
– Wladimir, você lê cartas?
– Sim, leio.
– Gostaria de agendar uma consulta...
– Sim.
– Você tem horário disponível ainda hoje?
– Tenho sim.
– Ok.
Marquei o horário de Maria Eduarda e desliguei o
telefone celular. À noite, ela apareceu em meu apartamento. Uma mulher morena,
olhos castanhos, cabelos encaracolados, linda. Pedi para ela sentar-se à mesa
de jogo, que ficava na sala. Ela sentou-se, eu acendi uma vela amarela, um
incenso e abri as cartas. Na mesa real, a dama cercada por um chicote, uma
âncora e uma cruz; de costas para ela, o cavaleiro cercado pela criança, pela
casa e pelo cachorro.
– Você é casada...
– Sim.
– Mas você não ama seu esposo...
– Não.
– Você ama seu amante!
– Sim! Como você sabe?
– As cartas... Nunca mentem... Mas é o seguinte: ele
não largará a esposa e os filhos para ficar com você.
– Não?
– Não. Contente-se em ser apenas a outra.
– Mas eu amo tanto ele...
– Com você é só uma aventura...
– Cretino...
– A condição é essa, de amante. Vai querer?
– Não, não... Acho melhor não... Acho melhor
esquecê-lo.
– Bom... Meu conselho é aproveitar... Como é o nome
dele?
– Roberto.
– Então, se você gosta desse Roberto, aproveite...
Apenas tome cuidado com seu esposo... Ele é muito possessivo, muito ciumento...
É capaz de matar por tua causa...
– Você acha, Wladimir?
– Não duvide. Um homem possessivo é capaz de tudo...E
o que quer que ele faça, você sabe que todos ficarão do lado dele, não sabe?
Ela me olhou com um olhar triste.
– Gostaria de saber de mais alguma coisa?
– Não. Está bom. Obrigada – disse ela, tirando o
dinheiro da bolsa.
Anotei o jogo de Maria Eduarda em meu caderno, apaguei
o fogo da vela e fechei as cartas. Quando ela foi embora, ao rever as anotações
me perguntei quem seria a raposa rondando-a?
***
Eu nem precisava das cartas para a maior parte do que
eu disse. A pessoa difícil, impossível, geralmente é um troféu. É normal se
apaixonarem. Não é à pessoa em si que eles entregam o coração, mas ao grau de
dificuldade que se impõem. Tanto é verdade que, muitas vezes, ao conquistarem o
coração de alguém, logo perdem o interesse, o amor, a paixão. Dificilmente
acontece da gente se apaixonar por alguém fácil, disponível, previsível. O
amante de Maria Eduarda era isso: o troféu que ela talvez um dia pudesse ter...
Enquanto seu esposo, a medalha pendurada na parede da sala de casa...
Um dia mandei uma mensagem de texto para Maria Eduarda
perguntando se ela havia decidido se continuaria vivendo uma aventura com seu
amante ou não. Maria Eduarda respondeu que não sabia ainda, que era muito
difícil ficar com um homem que amava sabendo que não o teria para ela, que a
expectativa era imprescindível para uma relação etc. Falou-me que estava
sofrendo de amor, que vira Roberto dias atrás, que ele mandou uma mensagem em
seu celular convidando-a para ir num motel.
Perguntei-lhe como eles se conheceram. Roberto era
gerente da loja de joias onde ela trabalhava antes de se casar. No fim de um
expediente, ele a convidou para tomar um café ali perto da loja. Maria Eduarda
aceitou o convite e, a partir de então, começaram a conversar com mais
intimidade no trabalho. Ela foi se envolvendo com Roberto e acabou num motel
com ele.
Continuei conversando com Maria Eduarda por texto. O
assunto era sempre o mesmo: Roberto. Com o tempo ela foi me falando sobre a sua
vida conjugal: odiava seu esposo. Estava com ele ainda porque era dependente.
Ele dava dinheiro, ele dava presentes, ele amava-a. Estou chamando seu esposo
de ele porque era assim que ela se referia quando falava dele. Nunca dizia o
seu nome, mas apenas “ele”. Dizia: depois conversamos, ele chegou; não suporto
mais ele; se ele morresse eu seria a mulher mais feliz de Campo Grande! Ele...
Ele... Ele...
Uma noite, Maria Eduarda me falou que caiu em tentação
e foi mais uma vez com Roberto em um motel.
– Foi bom?
– Maravilhoso... Nem me lembrei que era casada...
Atitudes como essa muitas vezes me fazem perder a fé
na humanidade e a confiança no ser humano – nem sei por que ainda entrego meu
coração. Por que tantas têm coragem de casar com quem não amam? Por que enganam
a si mesmas e a seus esposos? Não foi difícil descobrir quem era o marido de
Maria Eduarda: bastou digitar seu nome completo no Facebook para saber tudo da
vida dela. No seu perfil estava escrito “casada com Jorge Cavanha”. No seu
álbum de fotos, ele aparecia com Maria Eduarda, ora beijando-a, ora
abraçando-a. Nas legendas das fotos ele escrevia: “eu te amo”, “você é o amor
da minha vida”, “não saberia viver sem ti”, “nunca encontrarei alguém como
você”, “você é especial para mim. Meu tudo” e assim por diante.
Jorge tinha uma cara malvada. Na maioria das fotos em
que estava sozinho, ele aparecia com os braços cruzados, encarando. Olhei bem
no fundo dos olhos dele e vi um assassino em potencial, alguém capaz de tudo se
traído.
Não me intimidei e mandei uma mensagem de texto para
Maria Eduarda dizendo que se ela não fosse para a cama comigo eu iria contar ao
seu esposo seu caso com o amante Roberto. Eu mostraria a mensagem da Maria
Eduarda sobre ele, dizendo que foi para o motel com o maldito, que foi bom e
que nem lembrou de que era casada quando transou com ele...
– O quê?!
– Isso mesmo que você leu. Ou vem aqui, ou conto tudo
para seu esposo...
– Você nem sabe quem é meu esposo...
– Minha filha, o Facebook sabe tudo. Quase tanto
quanto as cartas.
Desligou o telefone. Esperei meia hora para retornar a
ligação.
– Você faz isso com todas as suas clientes?
Meu coração bateu forte. Medo ou excitação? Ter o
poder de levar para cama uma mulher como ela era um afrodisíaco danado.
– Não, nunca fiz. Estou apaixonado. Você é a primeira
e será a última.
– Cretino! Vou te denunciar!
– Para quem?
– Para o sindicato.
– Que sindicato? O sindicato dos cartomantes?
– Denuncio para a polícia, então.
– Pode denunciar, não me importo. Mas seu esposo
ficará sabendo.
– Cretino, mau caráter!
– Te espero até amanhã à noite.
***
Maria Eduarda veio conforme o combinado. Xingou-me de
nomes terríveis, praguejou:
– Tomara que Deus tire esse seu dom, Wladimir, de ler
as cartas. Um dom bonito como esse não pode pertencer a uma pessoa tão feia
como você, cretino. – xingava enquanto insinuava se despir.
De repente, percebi que aquela trepada seria péssima e
não valeria o risco. E se o marido corno e chifrudo descobrisse? Simulei uma
vergonha sincera. Dessas, de cortar o coração.
– Você acha mesmo que seria capaz disso? Foi essa
forma que encontrei para te ver. Você é tão linda...
Ela se sentou no sofá, aliviada. Depois riu, exibindo
seus dentes claríssimos.
– Há tantas formas para convidar uma pessoa para nossa
casa e você encontrou só essa?
– Me desculpa. – Eu sabia como fazer uma expressão
triste.
– Sendo assim, está desculpado.
– Bom, agora, se quiser ir, pode ir...
– Mas já? Que espécie de homem é você?
Ficamos conversando na sala. Ela estava muito relaxada
e tinha se preparado tanto para enfrentar seu destino que sua voz exalava, inclusive,
compaixão. Nossa conversa foi tomando um rumo erótico e, quando vi, estávamos
na minha cama. Maria Eduarda era uma mulher carinhosa, romântica.
– Quando vamos nos ver novamente? – perguntei-lhe.
– Não sei. Combinamos.
***
Porque eu sabia que Maria Eduarda só gostava de quem
não gostava dela, no nosso terceiro encontro dei um fim, rejeitando-a.
– Meu Deus! Primeiro você me seduz, me fez esquecer
aquele imbecil do Roberto, e agora me dá um fora? Que tipo de homem é você,
Wladimir? Um sangue-frio?
– Não quero problemas. Queria apenas sexo. Você é
casada. Devia respeitar seu marido.
– E aquela história de que estava apaixonado e tudo?
Não respondi.
Maria Eduarda desceu as escadas chorando. Durante uma
semana me bombardeou com mensagens de texto. Pediu-me só mais uma noite de
amor, a última. Concedi. Ela veio ao meu apartamento, transamos, disse que me
amava.
O que não era verdade. Ela amava a aventura, o
proibido, o impossível. Para mantê-la, eu precisava ser como o Jorge:
inalcançável. Só assim ficaria no controle, só assim ela seria minha quando eu
quisesse, se quisesse.
Mas daí, o corno veio atrás, bateu na porta, primeiro,
quase educado, depois, dando socos e morros. Abri, e ganhei o tiro. Acordei
três dias depois na UTI. Quase morrera com a bala que o esposo de Maria Eduarda
deu no meu peito. Sempre que estava perto de algum perigo as cartas me
avisavam, só que daquela vez, não: a praga de Maria Eduarda valera quando rogou
a Deus para tirar o dom bonito de mim?
Recebi a visita de meu irmão, me trouxe roupas, meu
telefone celular, o meu baralho cigano. Agradeci, ele ficou um pouco comigo,
conversamos, me pediu para ter mais cuidado com as mulheres dos outros e foi
embora.
A enfermeira apareceu. Era uma jovem ruiva que usava
um piercing no nariz. Chamava-se Karen. Enquanto trocava meu curativo, seus
olhos pousaram no baralho Cigano que eu deixei na mesa de cabeceira.
“O senhor lê?”, ela perguntou, curiosa e cética, como
muitas.
“Sim”, a garganta seca.
Abri o jogo sobre os lençóis. A Dama, o Chicote, a
Cruz. O Cavaleiro de costas – alguém já disse que o homem se casa apenas para
fazer da esposa, das filhas e do cachorro prisioneiros?
Glauber da Rocha, in: Com os Dentes Que Ainda Me Restam (editora oito e meio, 2018, R.J.)