quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

O mundo não sabe de nada


A professora Bárbara olha todo o mundo de cima para baixo. O seu olhar pergunta: o que você sabe? A professora Bárbara sabe mais que todo o mundo. Ela conhece a riqueza e a pobreza, o belo e o feio, a saúde e a doença. Ela sabe de tudo isto, mas o mundo, não.

O mundo não sabe que as pessoas são interesseiras e que muitas delas nos enganam apenas para ter o que é nosso, como dinheiro, corpo e alma. Pessoas vêm e roubam o nosso dinheiro, o nosso corpo, a nossa alma. Elas nem são o Diabo, são pessoas mesmo.

A professora Bárbara ficou milionária ao acertar na loteria. Teve de tudo, perdeu tudo. Hoje encara, novamente, as salas de aula. Continua jogando na loteria e diz que agora sim está preparada para ser rica.

A professora Bárbara olha a diretora da escola e vê que ela não sabe de nada. Olha para os coordenadores e coordenadoras e vê que ninguém sabe de nada. Não sabem de nada os alunos, as alunas, as mães, os pais, os tios e avós.

Ninguém sabe de nada. Só ela, a professora Bárbara, sabe de algo neste mundo.


Da Rocha Silva - Do livro de contos: Entre Aulas e Recreios.

O sacrifício


O sacrifício

 

Eu não tinha uma vida devassa com Angélica, tinha? Creio que não. A única coisa errada que fazíamos era beber além da conta nos sábados e domingos e quebrar o pau. As nossas brigas tinham apenas um fim último: reacender as nossas paixões carnais, pois, quando fazíamos as pazes, transávamos feito loucos – duas, três, sete vezes.

Eu gostava de tudo em Angélica, mas, como todo sujeito ranzinza, havia horas que a sua presença me incomodava. Quando ela disse que iria frequentar uma igreja, entrar num caminho de luz, confesso que fiquei muito feliz: ela estava prestes a me dar duas ou três horas de folga da sua presença toda vez que fosse para um templo religioso. Mas, quando ir à igreja deixou de ser uma virtude para tornar-se um vício, eu vi que estava completamente fodido.

– Você está com Jesus ou com Satanás, Batista?

– Com Jesus.

– Então vamos comigo à igreja...

– Hoje não...

– Então você não está com Jesus, e quem não está com Jesus, está com Satanás...

– Olha, Angélica, não estou nem com um, nem com outro: estou com a Razão... – Eu tinha ouvido alguém responder essa frase numa entrevista. Anotei. Achei que nunca fosse conseguir usar.

Mas o negócio começou a complicar mesmo para o meu lado quando Angélica começou a implicar com a nossa TV de 75 polegadas: a TV não era mais TV, um eletrodoméstico inventado por John Logie Baird para nos livrar do tédio e da solidão. A TV tinha se tornado o portal de Satã. É por meio da TV que Satã fala conosco. Por isso o mundo está perdido, cheio de assassinos, ladrões e políticos corruptos.

– Vou levar a televisão para a igreja – ela sentenciou.

– Para quê?

– Para sacrificá-la no altar.

– Sacrificá-la no altar? Que diabo é isso?

– O bispo sempre nos pede para sacrificar aquilo que atrapalha a nossa vida. Toda vez que ele diz isso, eu penso na nossa televisão. Você está com Jesus ou com Satanás?

– Se a TV é de Satanás, então estou com ele...

Angélica chorou.

– Vou levá-la mesmo assim. Se você não deixar, vou embora...

– Pode ir – eu disse. Não iria deixar um lobo vestido em pele de cordeiro levar o fruto de muito trabalho e aporrinhação: só de parcelas, foram vinte!

Angélica saiu de casa, e sofri feito um condenado. Nem de assistir à TV, aquilo que eu mais amava, tinha vontade. Um mês depois, soube que ela estava morando na casa do bispo. Fui até a igreja dele. A igreja não era nenhuma capelinha, era um templo enorme, gigantesco. Senti-me intimidado, respirei fundo, entrei. Havia mais de dez pastores, mais de vinte obreiros e mais de mil fiéis na igreja. Resolvi sentar-me num dos bancos e assistir a um dos inúmeros cultos diários.

– Você está com Jesus ou com Satanás? – disse o bispo, lá de cima do altar.

– Com Jesus! – gritaram os fiéis em uma só voz.

De repente apareceu Angélica lá em cima do altar. Estava vestida com uma blusa branca e uma saia azul que passava dos joelhos. Seu cabelo estava preso num rabo de cavalo petrificado, duro de tanto gel. Debaixo de seu braço tinha uma Bíblia. Ela chegou, falou algo no ouvido do bispo e sentou-se em uma das cadeiras que havia em cima do altar. Quando o bispo parou de pregar, ela levantou-se, foi ao púlpito e começou a falar sua vida antes de aceitar Jesus.   

– Eu vivia uma vida devassa, na mais completa escuridão... – disse ela, referindo-se à vida que teve comigo.

Não me segurei. Levantei-me e fui em sua direção. Uns quatro obreiros apareceram imediatamente, me imobilizaram e tudo. Me jogaram para fora da igreja como um dono do bar joga um bêbado nojento na rua.

Voltei triste e cabisbaixo para casa. Tive vontade de vestir-me de preto, esperar a noite e me jogar numa BR. Mas não fiz isso. Voltei à igreja no dia seguinte e consegui falar com a Angélica, disse que se ela não voltasse para casa eu venderia todos os nossos móveis e eletrodomésticos e até a nossa casa para sacrificar todo o dinheiro no altar; se ela não voltasse comigo, tudo ia virar sacrifício. Angélica deu de ombros. Fiz o que falei, vendi os móveis, os eletrodomésticos e por fim a casa. Peguei todo o dinheiro, fui numa favela e joguei todas as notas para o ar.

O caos se fez. Alguns homens brigaram por uma nota de cem reais. Uma mulher arranhou o rosto de uma menina para pegar algumas notas de cinquenta. Nisto, eu vi um velho, sentado à porta de um barraco, me olhando com um cansaço mais profundo que o meu. No seu silêncio, vi meu vazio: além de ficar sem dinheiro, fui responsável por agressões físicas e psicológicas entre eles – essa culpa, carregaria sozinho para o resto da vida.

Fui morar na frente do templo, fiz uma casinha de papelão e madeira. Só levei uma pequena mala de roupas, que eu cuidava como a própria vida para ninguém pegar, sobretudo a roupa e os calçados que usei no dia do meu casamento com a Jaqueline, uma calça de linho, um terno, uma gravata, um par de sapatos caríssimos e uma faca.

Meu corpo, antes acostumado ao conforto de minha sala, aprendeu a dormir naquele chão frio e muitas vezes cheirando a mijo. Comia o que encontrava nos lixos, e quase todas as noites assistia aos cultos do bispo. Ao contrário de muitos pastores, ele não gritava. Sua voz era calma, falava com pausas profundas, dizia, irmãos, Deus não que o seu pior, quer o que você tem de melhor; porque, só quando você oferece aquilo que dói perder, é que você prova que o Reino dos Céus é mais importante do que você, do que tudo, e então Ele te devolve mil vezes mais.

Os fiéis entravam na dele – não todos, vale observar, alguns se viravam e saíam desta arapuca. Enquanto isso, ele ajustava a gravata cara, de seda, o brilho do seu anel de ouro cintilava.

Eu via essas coisas e olhava para Angélica, perguntando com a minha expressão: está certo o que vocês andam fazendo com as pessoas? No começo ela me ignorava, fingia não me ver ali, olhando para ela com um ar inquiridor. Mas com o tempo a minha presença passou a incomodá-la. Quando ela pregava a Palavra, e olhava para mim, dizia: “afaste-se, ó Satanás!” Eu não me afastava, é claro.

Com o tempo os pastores e os obreiros começaram a me barrar na porta. Eu fazia um escândalo, os fiéis ficavam compadecidos, eles que me deixavam entrar.  Comecei a mendigar também, e tudo o que eu ganhava gastava com pinga. Às vezes eu entrava bêbado no culto. Olhava para ela, não tirava o meu olhar. Eu dizia: “está vendo, está vendo o que vocês fazem com as pessoas?” Numa noite, vi que ela estava saindo sozinha em seu carro de luxo. Ela não percebeu que eu a vigiava. Aproximei-me do seu carro, bati no vidro, ela abriu pensando que fosse algum outro conhecido. Quando me viu, todo maltrapilho, levou um susto, disse: 

– Afaste-se de mim, Satanás! 

Não me afastei. Ela arrancou com o seu automóvel, grudei-me nele, acho que consegui ficar agarrado em seu carro por um quarteirão. Quando não aguentei mais, abri a minha mão e rolei no asfalto. Fiquei todo esfolado.

Fui ao culto na noite seguinte, todo desfigurado. O bispo falou da transfiguração de Jesus, depois falou sobre as artimanhas de Satanás. Ninguém na igreja, nem os pastores, nem os obreiros, ofereceram-me curativos. E o bispo nunca usava a parábola do Bom Samaritano em seus sermões. 

Dias depois, quando sarei dos machucados, decidi usar a roupa que me casei com Angélica e fui para o culto. Os obreiros nem me reconheceram, de tão bonito que eu estava. Eles só não suspeitaram da faca fria que eu carregava na cintura... Naquela noite, não hesitei. Quando o bispo chamou todos para o altar para entregar seus envelopes com o sacrifício dentro, eu entrei na fila daquele bando de otários e fui.  No altar, ele não me reconheceu: só viu o homem com um envelope com “dinheiro” dentro. Sorriu o seu sorriso profissional, que se desfez quando viu a minha faca afiadíssima.

Matei o bispo. Não senti nem alivio nem culpa, apenas o vazio de um sacrifício finalmente consumado. Os obreiros me imobilizaram, a policia veio, fui preso e condenado. Angélica até hoje não me perdoou e não veio me visitar na penitenciária. Até entendo.

Quando um pastor capelão vem aqui e começa a pregar a palavra de Deus para os detentos, eu sempre assisto. Quando ele pergunta se estamos com Jesus ou com Satanás, eu brado, bem alto para todo mundo ouvir:

– Com Jesus, pastor!

 

 


Glauber Da Rocha, in: Com Os Dentes Que Ainda Me Restam

A LOIRA DO 74

 

A loira do 74

 

Deixei o Silvio e o Gimenez subirem lá no terraço do prédio para falar com o suicida. Enquanto eles tentavam convencê-lo a não pular, eu ficaria ali no meio do bolo de gente que se fez para ver qual seria a sua decisão, enquanto aguardava os bombeiros e ajudava manejar os curiosos. (Enquanto eles tentavam convencê-lo a não pular, eu ficaria ali embaixo aguardando os bombeiros para ajudá-los a manejar os curiosos, abrindo espaço para eles armarem a cama elástica). Eu tinha um binóculo. O suicida era um homem novo, bonito, classe média. Olhei para um magrinho de gravata que estava ao meu lado e perguntei se ele sabia o motivo pelo qual o homem queria pular.

– Não sei, doutor – disse sem desviar os olhos do alto do prédio. – O pessoal do condomínio comenta que foi uma separação. A mulher não superou.

Um velho, encostado na parede com as mãos nos bolsos, cuspiu no chão antes de falar.

– Separação? O buraco é mais embaixo. Dizem que ele ficou broxa, de uma hora para outra...

A gorducha ao meu lado sussurrou para a amiga, mas eu consegui ouvir:

– Foi a loira do 74. Fez um trabalho. Coitado, preferiu pular.

Fiquei pensando no que eu faria se ficasse impotente: me jogaria também do décimo andar? Como eu já passava dos quarenta e nunca havia brochado nem uma vez sequer na vida, não fiquei meditando muito sobre isso. Na verdade, não conseguia compreender como pode acontecer essa desgraça com um homem: eu ficava com dó só de ouvir casos assim. Saquei do bolso o câmbio e perguntei como estava lá em cima.

– Estamos tentando o diálogo, Silva.

– Ok.

Duas mulheres chegaram perto de mim. Falavam da loira do 74 com um preconceito sem igual.

“Eu, hein? Morro de medo dessa macumbeira...”

Eu não acredito nessas coisas, mas também não duvido. Olhei em volta, quase todo mundo olhando para cima, na expectativa. E esses bombeiros que não chegam?, perguntei para mim mesmo. De repente o homem resolveu pular, de ponta-cabeça. Cena feia. Esparramou miolos para todos os lados. A ambulância veio, recolheu o corpo e o bolo de gente se desfez.

 

***

 

Voltei pensativo para a delegacia. Uma pessoa dá fim à vida por conta de conflitos existenciais, de uma depressão, de uma tragédia, de um sofrimento e até mesmo por uma questão de honra – Soren Kierkgaard diz que a pessoa se mata porque não consegue suportar a angústia. Dei o caso por encerrado.

Dias depois, a pergunta se ele havia realmente sido enfeitiçado ainda não queria calar, e eu resolvi ir ao prédio onde ele morava. Após apertar o interfone no portão, ouvi o porteiro perguntando o que eu queria.

– Como é o seu nome?

– Ronaldo.

– Ronaldo, preciso fazer uma vistoria no apartamento do senhor Luís C. Ribeiro, o homem que se jogou do décimo andar.

– Vistoria?

– Sim, sou delegado de polícia.

– Pode mostrar a sua identificação, por favor?

Mostrei para ele meu distintivo, a porta se abriu. Fui até à guarita.

– Ele morava no 73. O elevador é por aqui – disse ele, indo em direção ao elevador.

Acompanhei-o. Graças a Deus o elevador estava no primeiro andar. Entrei, apertei o número 7, o elevador subiu. Dona Maria, mãe do Luís C. Ribeiro, me atendeu. Era uma senhora dos seus setenta anos de idade, cabelos brancos, olhos miúdos, simpática.

– Sou o delegado Silva, preciso fazer uma vistoria no apartamento.

– Por favor, queira entrar.

– Eu sinto muito pela morte de seu filho. A senhora está melhor?

– Vou caminhando.

Pedi à dona Maria que me levasse ao quarto de Luís. O quarto dele era todo organizado. Perguntei-lhe se ele era sempre assim e ela me disse que Luís era a organização em pessoa.

– Administrador de empresas, virginiano, muito inteligente, não consigo compreender porque ele fez isso...

– Acho que nem Deus entende essas coisas...

Olhei seu guarda-roupas, suas roupas impecáveis, sapatos lustrosos. Enquanto isso, conversava com a dona Maria. Era viúva, professora aposentada, mas ia voltar a estudar, queria agora compreender, através de um mestrado em Psicologia ou Filosofia, o suicídio. Perguntei pela carteira dele e ela me mostrou onde estava no guarda-roupas. Peguei a carteira, abri, vi um cartão de visitas de um psicólogo: Jaime Pereira dos Santos. É engraçado, nenhum psicólogo tem nome de psicólogo, tal como têm os policiais e os travestis, que pelo nome já dá para saber o que o sujeito faz da vida – como por exemplo Solano, Silva, Kimberly e Scarlet. Eu comecei a pensar como seria um nome de psicólogo típico, mas desisti rapidamente.

– Era o que eu precisava – eu disse.

Pedi para ela anotar o número de meu telefone, se precisasse de alguém para conversar ou para outra coisa qualquer, poderia me ligar a qualquer dia e qualquer horário. Lá fora, passando a guarita, saquei o aparelho celular do bolso e liguei para o tal Jaime Pereira dos Santos. Ele me atendeu, me identifiquei, falei o motivo da minha ligação e marcamos um encontro em seu consultório mesmo.

Jaime era um homem de cinquenta anos, moreno, careca, usava óculos de grau com a armação branca. Pediu-me para entrar e sentar-me numa poltrona que ficava de frente para a dele. Sentei. Me conduzia claramente como se eu fosse um paciente. Perguntei-lhe se ele sabia por qual motivo Luís C. Ribeiro havia tirado a própria vida.

– A disfunção erétil, talvez.

– Por causa de uma depressão?

– Não. A disfunção erétil foi parte importante do que o levou a depressão...

– A disfunção era por causas fisiológicas?

– Não, psicológicas. Ele fez exames médicos e tudo, não deu nada.

– Ele falou sobre alguma mulher?

– Sim. Ele havia se separado de uma mulher, mas a mulher não aceitava, fazia um inferno na vida dele.

– Você sabe o nome dela?

– Eu devo ter anotado no histórico dele. Espere aí – disse ele, levantando-se.

Foi até a sua mesa e pegou uma agenda.

– Está aqui. O nome dela é Patrícia.

– Ele chegou a comentar que essa Patrícia fez feitiço para ele ficar brocha, quer dizer, impotente?

– Não. O senhor acredita nessas coisas?

– Não acredito, mas também não duvido – eu disse, saindo.

Voltei ao prédio onde Luís morava. Falei com o porteiro, peguei o elevador, parei no sétimo andar e apertei a campainha do 74. Enquanto aguardava ser atendido, perguntei-me por que eu era assim, tão curioso, e não tinha uma boa resposta. A experiência policial já devia ter me mostrado que isso não acaba bem.

Uma loira muito bonita me atendeu, usando um short bem curto e uma blusinha branca. Ela estava sem sutiã e dava para ver a marca dos bicos de seus seios. Identifiquei-me e ela pediu que eu entrasse. Sentei-me num dos sofás, olhei para o interior do apartamento para verificar se havia mais alguém e fui logo ao assunto:

– Dizem que você fez feitiço para o Luís ficar brocha...

– Eu? Nossa, por que esse povo não vai cuidar da vida deles?

– Mas você fez?

– De jeito nenhum...

– Mas você é macumbeira?

– Macumbeira é quem toca macumba, um instrumento musical que nem existe mais...

– E o que você é?

– Sou médium. Mas no meu terreiro só se faz o Bem. Lá não fazem amarrações ou feitiços do tipo...

– Entendi...

Se ela era feiticeira ou não, agora pouco me importava mais: ela era irresistivelmente linda. Olhei mais uma vez para seus seios. Depois, falei sobre o Luís C. Ribeiro, e seus olhos derramaram lágrimas estranhamente súbitas. Tirei um lenço do meu paletó e dei para ela enxugar o rosto. Patrícia tinha amado perdidamente Luís C. Ribeiro, fazia tudo por ele, é engraçado como entregamos nossos corações para pessoas que não gostam nem um pouco da gente, o senhor não acha?

– Agora estou aqui, de luto, tomando antidepressivos, sem coragem de sair casa.

Patrícia havia feito um acordo na empresa em que trabalhava e começaria a viver do seu seguro de desemprego. Antes de sair, pedi o número de seu telefone. Enquanto ela falava e eu gravava na agenda de contatos do meu celular, espreitava seus seios rosados. Será que ela percebeu e se perguntou se este suposto policial se tratava de um tarado?

Dias depois liguei para ela. Patrícia não queria sair, falei que era só uma volta ali perto do prédio, que ela precisava andar, tomar sol. Patrícia deixou-se convencer e passamos a passear quase todos os dias ali perto do prédio dela: Patrícia foi se curando, ria mais – não há nada melhor que o sol para curar a depressão, no meu entendimento.

Fomos para o quarto dela. No quarto tirei a sua roupa, seus seios eram os mais lindos que tinha visto em toda a minha vida, e seu corpo inteiro acompanhava-os harmoniosamente. Tirei a minha roupa e joguei-a na cama. Patrícia pediu-me para colocar preservativo. Eu não tinha na carteira, mas havia alguns na estante da sala, numa das gavetas, ela falou. Fui, de pau em riste, e voltei com o pau ainda em pé. Ela estava na cama, pernas abertas. Pedi para ela esperar um pouco e fui ao banheiro. Olhei-me no espelho, me admirando:

“Eu jamais vou ficar impotente!”, declarei, acho que não em voz alta.

Havia uma toalha úmida pendurada na porta. Peguei essa toalha. Era uma toalha bem pesada. Coloquei-a sobre o pau. O pau aguentou firme, não esmoreceu em nenhum momento. Eu estava como na adolescência. Tirei a toalha de cima do pau e voltei para o quarto, subindo na cama. Entrei nela, ela gemeu, gritou e chamou por Jesus, Maria e José!

Começamos a namorar. Nos primeiros dias, sentia bem com a sua devoção. Ela me ligava para saber se eu estava bem, se havia almoçado, se não tinha esquecido do casaco de frio. Mas depois o seu cuidado começou a ficar ácido. Num dia, uma conhecida me cumprimentou na rua. Patrícia, com isso, ficou muda o caminho de volta todo. Em seu apartamento, disse:

“É incrível como mulheres feias se acham no direito de ser familiares...”

Outra vez, uma policial me mandou um recado, num sábado.

“O que essa vadia quer, te perturbando no fim de semana?”

Brinquei com Patrícia, olha o ciúme doentio, falei. Mas não resolveu, e entendi porque Luís terminou com ela.

Rompi nosso namoro. Mas foi só romper nosso namoro para começar a brochar. Primeiro com uma, depois com outra e finalmente com a terceira. Nem me masturbando. Fiquei preocupado, procurei um médico, fiz exames, não deu nada. O médico me indicou um psiquiatra, que me deu remédios tarja-preta e me indicou um psicólogo. O psicólogo disse que tudo era coisa da minha cabeça. Eu precisava resgatar a minha autoestima e autoconfiança, que tudo aconteceria naturalmente. Não consegui: saí com uma, saí com outra, brochava miseravelmente.

Eu não falei que morava no sétimo andar de um prédio, falei?

O prédio onde eu morava tinha dez andares. Subi no terraço decidido a me jogar. Uma pessoa lá embaixo meu viu, sacou o celular e ligou para a polícia. Como eu me demorava a decidir, a polícia chegou em tempo. Olhei lá embaixo e vi um bolo enorme de gente: por que os curiosos são tão rápidos? Voltei. Aguardei mais um pouco, respirei fundo e vi que era hora de pular. Mas, quando estava pronto para o pulo fatal, ouvi meu nome. Olhei para trás e vi justamente o Silvio e o Gimenez. Falei para eles o motivo pelo qual ia me jogar. Tinha mesmo descoberto que é melhor mesmo morrer do que ficar impotente.

“Silva, desce daí, meu amigo. Para que acabar com a sua vida?”

“Não adianta, Silvio. É melhor morrer do que viver assim.”

Gimenez, com desdém, disse:

“Pensei que você era um delegado de verdade... Te admirava... Mas não passa de um covarde...”

Fiquei puto com ele.

“O que você disse?”

“Isso mesmo que você ouviu... Quer que eu repita?”

“...”

“Sabe de uma coisa? Essa mulher jogou uma praga na sua cabeça. E você acreditou. Vai provar ao mundo que o feitiço dela funciona? Você não é vitima de feitiço, você é cumplice da própria desgraça. Você está fazendo o que ela quer...”

Gimenez tinha razão. Desisti. Quando cheguei lá embaixo, as pessoas bateram palmas para mim, chegaram a me fazer cafunés. O Brasil está melhorando, acho. Dias depois, fui num pai de santo, falei com ele sobre meu problema. Ao me ouvir, disse que dava para desmanchar o trabalho e eu paguei o preço.

O pai de santo passou um ebó no meu corpo. Um ebó é uma limpeza, com ovos, quiabos, pipocas e outros tantos ingredientes, enquanto é rezada uma linda cantiga, em iorubá. Saí mais leve de seu terreiro.

Dias depois conheci Raquel, uma ruiva muito bonita. Levei-a para minha casa. Meu pau endureceu. Antes de entrar nela, fiz o que fiz com Patrícia na primeira vez: fui até à sala, voltei para o banheiro, coloquei uma tolha em cima. Ele continuou de pé, vibrando.

Entrei nela e Raquel gostou, quis namorar comigo. Hoje estou com ela. Eu posso estar cansado, estressado, triste, mas quando chego perto dela eu me animo! Às vezes fazemos mais de três vezes por noite.

Não sei se foi o ebó que o pai de santo passou em mim, porque tudo pode ter sido apenas sugestão: o pai de santo portador de poderes sobrenaturais, as imagens, o ritual, as cantigas, tudo isso pode ter convencido meu subconsciente, curando a minha disfunção erétil de ordem psicológica. Ou não. Talvez o ebó tenha desmanchado o trabalho de Patrícia, talvez os santos tenham me ajudado, afinal de contas. Não acredito, mas também não duvido de nada. A metafísica ou psicologia envolvida não me importa. Meu pau está vivo.

 

 

 


Glauber Da Rocha, in: Com Os Dentes Que Ainda Me Restam

FISCALIZAÇÃO

 Fiscalização

 

Todos os dias eu fazia uma vistoria cuidadosa em meu restaurante. Para não deixar nada de errado passar batido, eu pensava como se fosse um fiscal intransigente, detalhista e, portanto, asqueroso. Olhava produto por produto, conferia a validade, cheirava. Cuidava dos funcionários também, conferindo se eles não cometiam algum erro na manipulação dos alimentos, se tinham higiene.

Eu passava mais tempo cuidando da qualidade da higiene do restaurante que dando atenção aos meus clientes. Não sei se era obsessão, mania de limpeza ou preocupação excessiva de ser, um dia, interditado. Às vezes acordava no meio da noite por conta de um pesadelo ligado à higiene do restaurante.

Numa dessas noites, sonhei que apareciam baratas de todos os lados no salão, algumas correndo pelo chão ou nas paredes, outras voando para lá e para cá. Havia um homem entre essas baratas, mas não dava para ver o seu rosto. Desconfiei que pudesse ser um fiscal. Não: ERA um fiscal... Agora tenho certeza de que se tratava de um fiscal.

Não dei muita atenção ao pesadelo. Interpretei e concluí que não era nenhuma espécie de premonição, mas o resultado da pressão psicológica da qual eu estava prisioneiro. Além do mais, eu tinha relido A metamorfose, de Kafka, dois dias antes. Freud diz que a matéria do sonho é construída dois dias antes. Freud devia estar com a razão, não era nada de mais. A matéria onírica só foi cozinhando, cozinhando, e o sonho tinha ficado pronto justo naquela noite.

Mesmo assim, fui para o restaurante pensando no pesadelo. Quando cheguei, fiz toda a inspeção de rotina, observando cada detalhe. Neste dia recebi a visita do fiscal. Lembrei-me imediatamente do pesadelo que tive durante a noite. Será? Não, meu sonho estava mais para cena de filme do que para algo que pudesse acontecer na realidade. Fui atender o fiscal, um homem magro e alto, careca, narigudo, vestido com roupa social. Olhei o crachá em seu peito e falei:

– Oi, Oswaldo, tudo bem?

– Senhor Alexandre?

– Sim.

Ele apertou a minha mão, respondeu que estava bem, falou o motivo de sua visita e eu o acompanhei pelo restaurante. Ele não deixou escapar nada: freezer, despensa, banheiros, funcionários. Não tinha nada fora do normal. Ele abriu a pasta que carregava, tirou um bloco de papel impresso e começou a escrever seu relatório. Eu fiquei ali, olhando atentamente cada palavra que ele escrevia, quando, enfim, surgiu uma barata. Ela atravessou voando uma das janelas da cozinha e pousou bem na careca de Oswaldo. Ele sentiu algo estranho, passou a mão na careca e deu um tapa na barata. A barata caiu no chão e sem pensar duas vezes pisei em cima dela, crack.

– Isso nunca acontece, doutor.

– Tudo bem, senhor Alexandre, é só uma barata...

Mal ele falou “é só uma barata” para aparecer outra voando. Atrás dessa vieram mais duas. Depois surgiu um batalhão de baratas. Algumas andavam pelo chão e pela parede, outras voavam. Tinha mais de cinquenta baratas na cozinha do restaurante.

As cozinheiras saíram correndo para o salão. As baratas foram atrás delas. Alguns clientes se assustaram, muitos foram embora sem pagar. Eu estava perdido. A gente cuida todos os dias para tudo ficar conforme as regras, mas justamente quando aparece um fiscal, tudo dá errado. Acho que os fiscais sentem o cheiro. Antes de decidirem quem visitar, uma inspiração maligna sopra em seus ouvidos, dizendo: “vai em tal lugar, lá você vai achar algo errado.” É uma espécie de “vide e vede” às avessas.

Enquanto as baratas tomavam conta do restaurante, eu procurava o portão do inferno do qual elas estavam saindo. Encontrei uma das fossas abertas. Alguém havia feito aquilo de propósito, quando viu que se tratava de um fiscal visitando o restaurante. Quem? Fechei a tampa e voltei para dar explicações ao fiscal. Ele não quis ouvir.

– Seu restaurante ficará interditado até segunda ordem, senhor Alexandre.

Não tive direito nem de defesa.

– O mundo é injusto! – comecei a gritar. – Está cheio de filhos da puta! Quem foi o desgraçado que fez isso contra mim? Vamos! manifeste-se, demônio!

Carlos Alberto, o chefe de cozinha, manifestou-se. Abrira a fossa porque já estava de saco cheio comigo por conta desta minha paranoia com a limpeza, interrompendo seu trabalho constantemente por coisas miúdas, irrelevantes.

Olhei bem para o maldito. Era um gordo que usava uma barbicha horrível. Sempre achei a barbicha dele horrível, mas nunca falei para não ganhar um inimigo.

Fui até meu escritório, peguei meu revólver, voltei e apontei para ele. Disse-lhe:

– Agora você vai dançar, filho de uma puta! – E dei vários tiros no chão.

Ele dançou.

Quando a munição do revólver acabou, veio para cima de mim. Mas eu estava com tanto ódio deste filho de uma puta que acabei lhe dando uma surra que certamente ele não tomou nem quando era criança. Para não apanhar mais, o infeliz saiu da cozinha, passou pelo salão e ficou lá fora, escorado nos demais funcionários.

Fui até a despensa, peguei um litro de álcool e joguei no chão da cozinha. Com fósforos, ateei fogo. Em menos de um minuto um fogaréu imenso se fez. Peguei outra garrafa de álcool e esvaziei-a no salão. Depois fui para o meu escritório, fechei a porta e recarreguei com calma meu revólver. Tentei dar um tiro no ouvido, mas não consegui. A fumaça foi entrando pela fresta da porta. Fui ficando sem ar e desmaiei, sem conseguir dar um fim na minha vida maldita.

 

***

 

Acordei no hospital. Perguntaram por que eu havia feito o que fiz e eu falei que a vida é injusta: você faz tudo certo, mas quando chega um maldito de um fiscal, tudo dá errado. Contei também que quando era garçom eu trabalhava dedicadamente, mas, quando fazia uma coisinha errada qualquer, como por exemplo confundir o pedido de uma mesa ou de outra, sempre aparecia ou o maître ou o meu patrão para me chamar a atenção na frente de todos. Juntei dinheiro e montei um restaurante, acreditando que nunca mais alguém iria me foder.

Ilusão. Tudo não passou de uma ilusão. A vida é uma ilusão. Uma grande ilusão, sabiam?

Recebi alta dias depois. Fui para casa. Eu tinha uma boa poupança e pude ficar dois meses sem sair. A minha única distração era navegar na internet. Num dia vi um edital para fiscais de bares e restaurante – me inscrevi e passei no concurso. Hoje faço o que fizeram comigo. A vida é assim: fazemos aos outros o que fazem conosco. Como fiscal, desenvolvi o faro maldito. Sou um sujeito inspirado pelo mal. Quando vejo algo de errado, multo. Quando vejo algo de muito errado, interdito. Fecho mesmo! Não tenho dó – nenhum fiscal teria de mim.

Glauber Da Rocha, in: Com Os Dentes Que Ainda Me Restam

O PIOR VENDEDOR DO ANO

O pior vendedor do ano

 

O vendedor do ano ganharia um carro zero-quilômetro. Como eu estava cansado de andar a pé ou de ônibus, resolvi lutar pelo prêmio. Trabalhei firme de janeiro a dezembro e acabei em primeiro lugar.

Fizeram uma grande festa para a entrega do prêmio. Alugaram um salão de festas, onde montaram cem mesas para os funcionários e convidados. Montaram um palco também para o presidente discursar e entregar o prêmio. Uma banda musical foi contratada e havia comida e bebida à vontade, servidas por uma infinidade de garçons.

Levei minha esposa e meus dois filhos. Quando anunciaram o melhor vendedor do ano, eu me levantei e fui pegar a chave do meu prêmio. O presidente pediu-me um breve discurso. Peguei no microfone e comecei a agradecer. De repente, meu braço esquerdo começou a formigar: eu estava cansado, trabalhar para ganhar o carro me cansara bastante. Comecei a suar frio, o lado esquerdo do meu peito começou a doer. A dor foi tão forte que gritei e me ajoelhei no chão, jogando o microfone de lado. Mendes, o dono da empresa, tentou me levantar. Não conseguiu. Disse:

– Esse homem foi inventar de ter um infarto logo agora?

Não vi quase nada, mas imagino que tenha havido uma agitação na plateia, curiosa para saber o que estava acontecendo. Minha esposa subiu no palco e ficou gritando meu nome. Eu trabalhara demais nesse ano e ia morrer. É o que acontece com quem trabalha demais.

A minha visão escureceu.

No outro dia, acordei no hospital. Estava todo entubado. Minha esposa me assistia. Agora eu tinha, além do carro, mais três pontes de safena.

– Eu disse, não disse? – Devo ter ouvido a minha esposa dizer.

Fui para casa, assim que fui liberado. Passei três meses de licença médica. Quando retornei ao trabalho, voltei a sentir felicidade na vida: não ir para a empresa num daqueles ônibus lotados era uma grande vitória... Meu patrão me recebeu com um sorriso e um abraço, dando graças a Deus que eu estava bem.

– Este ano, o prêmio será uma casa. Você mora de aluguel, Genésio, não mora?

– Sim, eu moro.

– Estamos em abril, vou pegar o que você vendeu até essa data no ano passado e colocar lá no painel para você não ficar em desvantagem.

– Obrigado – eu disse, todo feliz, pensando comigo: como o Mendes é um homem bom, um grande homem, justo, honesto.

E mais: ainda bem que há patrões assim, que não pensam apenas neles mesmos, mas que fazem a bondade e a justiça, nos ensinando que quem se esforça, tem recompensa, que ideologia!  

Esquecendo-me do infarto, fui pra cima com meu carro zero, visitando e ligando para clientes, passando até noites em claro. A minha esposa me olhava com receio, meus filhos também. O corpo começou a dar sinais. Comecei a ver que a cada venda que fazia, era um pedaço da minha saúde que estava vendendo. Olhava o carro na garagem, é um troféu ou um monumento da minha burrice? Num dia, sentindo um arrepio na cabeça, a ficha finalmente caiu: eu estava me matando para deixar aquele filho da puta mais rico. E que se continuasse assim, iria ter a casa própria para morar, mas não aqui, na Terra. Ou, na melhor da hipótese, um derrame.

Eu era burro, mas não doido. Não iria trabalhar para ganhar uma casa e, junto, um derrame. Para que deixar meu patrão mais rico? Se ele tinha me dado um carro com o lucro das minhas vendas, certamente eu tinha dado três para ele, fora os outros vendedores, que não sentiram nem o cheiro de prêmio nenhum... Nem a pau! Era melhor ter saúde para pagar aluguel do que ter uma casa e viver entrevado numa cama. Não trabalhei. Fui o pior vendedor do ano. Meu patrão nem quis comentar meu péssimo desempenho: preferiu mandar me demitirem com uma justificativa bem mercadológica e bastante desumana. Então eu quis falar com ele, já que não tinha sido capaz de fazer pessoalmente, mandando terceiros.

“Preciso falar com o Mendes”, eu disse à secretária.

“O Mendes está em reunião.”

“Reunião com os supervisores?”

“Sim.”

“Melhor ainda”, eu disse, indo para a sala de reuniões.

A secretária tentou me impedir. Na sala, vi todos aqueles putos sacanas reunidos pensando em estratégias para fazer os vendedores venderem mais e mais; eles falam que os vendedores são as pessoas mais importantes de uma empresa, a alma, o coração, mas na verdade somos os manipulados, os explorados, os descartados, é isso o que somos. Mendes estava com seu paletó e sua gravata, com o habitual sorriso falso: o que ele deve falar da gente para a esposa?

“Genésio? O que é isso?”

Fui para pegá-lo pelo colarinho, jogar na cara dele que o vendedor só vale alguma coisa quando está vendendo, mas senti um formigamento, que subiu pelo braço esquerdo, o mesmo de um ano atrás. Dessa vez, eu sabia o que vinha... O lado esquerdo do meu rosto pesou, daí tive a sensação de que estava sendo puxado por um buraco sem fundo...

Consegui sair vivo dessa também, mas com a metade do corpo paralisada. Dei entrada na aposentadoria por invalidez mas foi negada, é incrível isso, a gente trabalha, contribui, mas quando precisamos, muitas vezes ficamos desamparados, enquanto tem gente que não precisa, tem saúde e tudo, e ganha auxílio do governo.

Tentarei novamente. Para não passar por grandes dificuldades, vendi o carro. Como eu consigo andar, ainda que lentamente, eu coloco um boné e vou para o centro vender de tudo. Quando chove, vendo guarda-chuvas. Quando é dia de pagamento, vendo títulos de capitalização. Quando está muito quente, vendo água. Quando quero, vendo pilhas e antenas, olha a antena, olha a antena, olha a antena – sim, meus amigos, com orgulho, reconheço que fui o pior vendedor no ano!

 

Glauber Da Rocha, in: Com Os Dentes Que Ainda Me Restam

ESCRITOR

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 "O fulano só fala com a gente do segundo andar", ouvi alguém dizer.  Imediatamente, me veio uma história para contar: a de uma mu...