O pior vendedor do ano
O vendedor do ano ganharia um carro zero-quilômetro.
Como eu estava cansado de andar a pé ou de ônibus, resolvi lutar pelo prêmio.
Trabalhei firme de janeiro a dezembro e acabei em primeiro lugar.
Fizeram uma grande festa para a entrega do prêmio.
Alugaram um salão de festas, onde montaram cem mesas para os funcionários e
convidados. Montaram um palco também para o presidente discursar e entregar o
prêmio. Uma banda musical foi contratada e havia comida e bebida à vontade,
servidas por uma infinidade de garçons.
Levei minha esposa e meus dois filhos. Quando
anunciaram o melhor vendedor do ano, eu me levantei e fui pegar a chave do meu
prêmio. O presidente pediu-me um breve discurso. Peguei no microfone e comecei
a agradecer. De repente, meu braço esquerdo começou a formigar: eu estava
cansado, trabalhar para ganhar o carro me cansara bastante. Comecei a suar
frio, o lado esquerdo do meu peito começou a doer. A dor foi tão forte que
gritei e me ajoelhei no chão, jogando o microfone de lado. Mendes, o dono da
empresa, tentou me levantar. Não conseguiu. Disse:
– Esse homem foi inventar de ter um infarto logo
agora?
Não vi quase nada, mas imagino que tenha havido uma
agitação na plateia, curiosa para saber o que estava acontecendo. Minha esposa
subiu no palco e ficou gritando meu nome. Eu trabalhara demais nesse ano e ia
morrer. É o que acontece com quem trabalha demais.
A minha visão escureceu.
No outro dia, acordei no hospital. Estava todo
entubado. Minha esposa me assistia. Agora eu tinha, além do carro, mais três
pontes de safena.
– Eu disse, não disse? – Devo ter ouvido a minha
esposa dizer.
Fui para casa, assim que fui liberado. Passei três
meses de licença médica. Quando retornei ao trabalho, voltei a sentir
felicidade na vida: não ir para a empresa num daqueles ônibus lotados era uma
grande vitória... Meu patrão me recebeu com um sorriso e um abraço, dando graças
a Deus que eu estava bem.
– Este ano, o prêmio será uma casa. Você mora de
aluguel, Genésio, não mora?
– Sim, eu moro.
– Estamos em abril, vou pegar o que você vendeu até
essa data no ano passado e colocar lá no painel para você não ficar em
desvantagem.
– Obrigado – eu disse, todo feliz, pensando comigo:
como o Mendes é um homem bom, um grande homem, justo, honesto.
E mais: ainda bem que há patrões assim, que não pensam
apenas neles mesmos, mas que fazem a bondade e a justiça, nos ensinando que
quem se esforça, tem recompensa, que ideologia!
Esquecendo-me do infarto, fui pra cima com meu carro
zero, visitando e ligando para clientes, passando até noites em claro. A minha
esposa me olhava com receio, meus filhos também. O corpo começou a dar sinais.
Comecei a ver que a cada venda que fazia, era um pedaço da minha saúde que
estava vendendo. Olhava o carro na garagem, é um troféu ou um monumento da
minha burrice? Num dia, sentindo um arrepio na cabeça, a ficha finalmente caiu:
eu estava me matando para deixar aquele filho da puta mais rico. E que se
continuasse assim, iria ter a casa própria para morar, mas não aqui, na Terra.
Ou, na melhor da hipótese, um derrame.
Eu era burro, mas não doido. Não iria trabalhar para
ganhar uma casa e, junto, um derrame. Para que deixar meu patrão mais rico? Se
ele tinha me dado um carro com o lucro das minhas vendas, certamente eu tinha
dado três para ele, fora os outros vendedores, que não sentiram nem o cheiro de
prêmio nenhum... Nem a pau! Era melhor ter saúde para pagar aluguel do que ter
uma casa e viver entrevado numa cama. Não trabalhei. Fui o pior vendedor do
ano. Meu patrão nem quis comentar meu péssimo desempenho: preferiu mandar me
demitirem com uma justificativa bem mercadológica e bastante desumana. Então eu
quis falar com ele, já que não tinha sido capaz de fazer pessoalmente, mandando
terceiros.
“Preciso falar com o Mendes”, eu disse à secretária.
“O Mendes está em reunião.”
“Reunião com os supervisores?”
“Sim.”
“Melhor ainda”, eu disse, indo para a sala de
reuniões.
A secretária tentou me impedir. Na sala, vi todos
aqueles putos sacanas reunidos pensando em estratégias para fazer os vendedores
venderem mais e mais; eles falam que os vendedores são as pessoas mais
importantes de uma empresa, a alma, o coração, mas na verdade somos os
manipulados, os explorados, os descartados, é isso o que somos. Mendes estava
com seu paletó e sua gravata, com o habitual sorriso falso: o que ele deve
falar da gente para a esposa?
“Genésio? O que é isso?”
Fui para pegá-lo pelo colarinho, jogar na cara dele
que o vendedor só vale alguma coisa quando está vendendo, mas senti um
formigamento, que subiu pelo braço esquerdo, o mesmo de um ano atrás. Dessa
vez, eu sabia o que vinha... O lado esquerdo do meu rosto pesou, daí tive a
sensação de que estava sendo puxado por um buraco sem fundo...
Consegui sair vivo dessa também, mas com a metade do
corpo paralisada. Dei entrada na aposentadoria por invalidez mas foi negada, é
incrível isso, a gente trabalha, contribui, mas quando precisamos, muitas vezes
ficamos desamparados, enquanto tem gente que não precisa, tem saúde e tudo, e
ganha auxílio do governo.
Tentarei novamente. Para não passar por grandes
dificuldades, vendi o carro. Como eu consigo andar, ainda que lentamente, eu
coloco um boné e vou para o centro vender de tudo. Quando chove, vendo
guarda-chuvas. Quando é dia de pagamento, vendo títulos de capitalização.
Quando está muito quente, vendo água. Quando quero, vendo pilhas e antenas,
olha a antena, olha a antena, olha a antena – sim, meus amigos, com orgulho,
reconheço que fui o pior vendedor no ano!
Glauber Da Rocha, in: Com Os Dentes Que Ainda Me Restam
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