Fiscalização
Todos os dias eu fazia uma vistoria cuidadosa em meu
restaurante. Para não deixar nada de errado passar batido, eu pensava como se
fosse um fiscal intransigente, detalhista e, portanto, asqueroso. Olhava
produto por produto, conferia a validade, cheirava. Cuidava dos funcionários
também, conferindo se eles não cometiam algum erro na manipulação dos
alimentos, se tinham higiene.
Eu passava mais tempo cuidando da qualidade da higiene
do restaurante que dando atenção aos meus clientes. Não sei se era obsessão,
mania de limpeza ou preocupação excessiva de ser, um dia, interditado. Às vezes
acordava no meio da noite por conta de um pesadelo ligado à higiene do
restaurante.
Numa dessas noites, sonhei que apareciam baratas de
todos os lados no salão, algumas correndo pelo chão ou nas paredes, outras
voando para lá e para cá. Havia um homem entre essas baratas, mas não dava para
ver o seu rosto. Desconfiei que pudesse ser um fiscal. Não: ERA um fiscal...
Agora tenho certeza de que se tratava de um fiscal.
Não dei muita atenção ao pesadelo. Interpretei e
concluí que não era nenhuma espécie de premonição, mas o resultado da pressão
psicológica da qual eu estava prisioneiro. Além do mais, eu tinha relido A
metamorfose, de Kafka, dois dias antes. Freud diz que a matéria do sonho é
construída dois dias antes. Freud devia estar com a razão, não era nada de
mais. A matéria onírica só foi cozinhando, cozinhando, e o sonho tinha ficado pronto
justo naquela noite.
Mesmo assim, fui para o restaurante pensando no
pesadelo. Quando cheguei, fiz toda a inspeção de rotina, observando cada
detalhe. Neste dia recebi a visita do fiscal. Lembrei-me imediatamente do
pesadelo que tive durante a noite. Será? Não, meu sonho estava mais para cena
de filme do que para algo que pudesse acontecer na realidade. Fui atender o
fiscal, um homem magro e alto, careca, narigudo, vestido com roupa social.
Olhei o crachá em seu peito e falei:
– Oi, Oswaldo, tudo bem?
– Senhor Alexandre?
– Sim.
Ele apertou a minha mão, respondeu que estava bem,
falou o motivo de sua visita e eu o acompanhei pelo restaurante. Ele não deixou
escapar nada: freezer, despensa, banheiros, funcionários. Não tinha nada fora
do normal. Ele abriu a pasta que carregava, tirou um bloco de papel impresso e
começou a escrever seu relatório. Eu fiquei ali, olhando atentamente cada
palavra que ele escrevia, quando, enfim, surgiu uma barata. Ela atravessou
voando uma das janelas da cozinha e pousou bem na careca de Oswaldo. Ele sentiu
algo estranho, passou a mão na careca e deu um tapa na barata. A barata caiu no
chão e sem pensar duas vezes pisei em cima dela, crack.
– Isso nunca acontece, doutor.
– Tudo bem, senhor Alexandre, é só uma barata...
Mal ele falou “é
só uma barata” para aparecer outra voando. Atrás dessa vieram mais duas.
Depois surgiu um batalhão de baratas. Algumas andavam pelo chão e pela parede,
outras voavam. Tinha mais de cinquenta baratas na cozinha do restaurante.
As cozinheiras saíram correndo para o salão. As
baratas foram atrás delas. Alguns clientes se assustaram, muitos foram embora
sem pagar. Eu estava perdido. A gente cuida todos os dias para tudo ficar
conforme as regras, mas justamente quando aparece um fiscal, tudo dá errado.
Acho que os fiscais sentem o cheiro. Antes de decidirem quem visitar, uma
inspiração maligna sopra em seus ouvidos, dizendo: “vai em tal lugar, lá você vai achar algo errado.” É uma espécie
de “vide e vede” às avessas.
Enquanto as baratas tomavam conta do restaurante, eu
procurava o portão do inferno do qual elas estavam saindo. Encontrei uma das
fossas abertas. Alguém havia feito aquilo de propósito, quando viu que se
tratava de um fiscal visitando o restaurante. Quem? Fechei a tampa e voltei
para dar explicações ao fiscal. Ele não quis ouvir.
– Seu restaurante ficará interditado até segunda
ordem, senhor Alexandre.
Não tive direito nem de defesa.
– O mundo é injusto! – comecei a gritar. – Está cheio
de filhos da puta! Quem foi o desgraçado que fez isso contra mim? Vamos!
manifeste-se, demônio!
Carlos Alberto, o chefe de cozinha, manifestou-se.
Abrira a fossa porque já estava de saco cheio comigo por conta desta minha
paranoia com a limpeza, interrompendo seu trabalho constantemente por coisas
miúdas, irrelevantes.
Olhei bem para o maldito. Era um gordo que usava uma
barbicha horrível. Sempre achei a barbicha dele horrível, mas nunca falei para
não ganhar um inimigo.
Fui até meu escritório, peguei meu revólver, voltei e
apontei para ele. Disse-lhe:
– Agora você vai dançar, filho de uma puta! – E dei
vários tiros no chão.
Ele dançou.
Quando a munição do revólver acabou, veio para cima de
mim. Mas eu estava com tanto ódio deste filho de uma puta que acabei lhe dando
uma surra que certamente ele não tomou nem quando era criança. Para não apanhar
mais, o infeliz saiu da cozinha, passou pelo salão e ficou lá fora, escorado
nos demais funcionários.
Fui até a despensa, peguei um litro de álcool e joguei
no chão da cozinha. Com fósforos, ateei fogo. Em menos de um minuto um fogaréu
imenso se fez. Peguei outra garrafa de álcool e esvaziei-a no salão. Depois fui
para o meu escritório, fechei a porta e recarreguei com calma meu revólver.
Tentei dar um tiro no ouvido, mas não consegui. A fumaça foi entrando pela
fresta da porta. Fui ficando sem ar e desmaiei, sem conseguir dar um fim na
minha vida maldita.
***
Acordei no hospital. Perguntaram por que eu havia
feito o que fiz e eu falei que a vida é injusta: você faz tudo certo, mas
quando chega um maldito de um fiscal, tudo dá errado. Contei também que quando
era garçom eu trabalhava dedicadamente, mas, quando fazia uma coisinha errada
qualquer, como por exemplo confundir o pedido de uma mesa ou de outra, sempre
aparecia ou o maître ou o meu patrão para me chamar a atenção na frente de
todos. Juntei dinheiro e montei um restaurante, acreditando que nunca mais alguém
iria me foder.
Ilusão. Tudo não passou de uma ilusão. A vida é uma
ilusão. Uma grande ilusão, sabiam?
Recebi alta dias depois. Fui para casa. Eu tinha uma
boa poupança e pude ficar dois meses sem sair. A minha única distração era
navegar na internet. Num dia vi um edital para fiscais de bares e restaurante –
me inscrevi e passei no concurso. Hoje faço o que fizeram comigo. A vida é
assim: fazemos aos outros o que fazem conosco. Como fiscal, desenvolvi o faro
maldito. Sou um sujeito inspirado pelo mal. Quando vejo algo de errado, multo.
Quando vejo algo de muito errado, interdito. Fecho mesmo! Não tenho dó – nenhum
fiscal teria de mim.
Glauber Da Rocha, in: Com Os Dentes Que Ainda Me Restam
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