quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

FISCALIZAÇÃO

 Fiscalização

 

Todos os dias eu fazia uma vistoria cuidadosa em meu restaurante. Para não deixar nada de errado passar batido, eu pensava como se fosse um fiscal intransigente, detalhista e, portanto, asqueroso. Olhava produto por produto, conferia a validade, cheirava. Cuidava dos funcionários também, conferindo se eles não cometiam algum erro na manipulação dos alimentos, se tinham higiene.

Eu passava mais tempo cuidando da qualidade da higiene do restaurante que dando atenção aos meus clientes. Não sei se era obsessão, mania de limpeza ou preocupação excessiva de ser, um dia, interditado. Às vezes acordava no meio da noite por conta de um pesadelo ligado à higiene do restaurante.

Numa dessas noites, sonhei que apareciam baratas de todos os lados no salão, algumas correndo pelo chão ou nas paredes, outras voando para lá e para cá. Havia um homem entre essas baratas, mas não dava para ver o seu rosto. Desconfiei que pudesse ser um fiscal. Não: ERA um fiscal... Agora tenho certeza de que se tratava de um fiscal.

Não dei muita atenção ao pesadelo. Interpretei e concluí que não era nenhuma espécie de premonição, mas o resultado da pressão psicológica da qual eu estava prisioneiro. Além do mais, eu tinha relido A metamorfose, de Kafka, dois dias antes. Freud diz que a matéria do sonho é construída dois dias antes. Freud devia estar com a razão, não era nada de mais. A matéria onírica só foi cozinhando, cozinhando, e o sonho tinha ficado pronto justo naquela noite.

Mesmo assim, fui para o restaurante pensando no pesadelo. Quando cheguei, fiz toda a inspeção de rotina, observando cada detalhe. Neste dia recebi a visita do fiscal. Lembrei-me imediatamente do pesadelo que tive durante a noite. Será? Não, meu sonho estava mais para cena de filme do que para algo que pudesse acontecer na realidade. Fui atender o fiscal, um homem magro e alto, careca, narigudo, vestido com roupa social. Olhei o crachá em seu peito e falei:

– Oi, Oswaldo, tudo bem?

– Senhor Alexandre?

– Sim.

Ele apertou a minha mão, respondeu que estava bem, falou o motivo de sua visita e eu o acompanhei pelo restaurante. Ele não deixou escapar nada: freezer, despensa, banheiros, funcionários. Não tinha nada fora do normal. Ele abriu a pasta que carregava, tirou um bloco de papel impresso e começou a escrever seu relatório. Eu fiquei ali, olhando atentamente cada palavra que ele escrevia, quando, enfim, surgiu uma barata. Ela atravessou voando uma das janelas da cozinha e pousou bem na careca de Oswaldo. Ele sentiu algo estranho, passou a mão na careca e deu um tapa na barata. A barata caiu no chão e sem pensar duas vezes pisei em cima dela, crack.

– Isso nunca acontece, doutor.

– Tudo bem, senhor Alexandre, é só uma barata...

Mal ele falou “é só uma barata” para aparecer outra voando. Atrás dessa vieram mais duas. Depois surgiu um batalhão de baratas. Algumas andavam pelo chão e pela parede, outras voavam. Tinha mais de cinquenta baratas na cozinha do restaurante.

As cozinheiras saíram correndo para o salão. As baratas foram atrás delas. Alguns clientes se assustaram, muitos foram embora sem pagar. Eu estava perdido. A gente cuida todos os dias para tudo ficar conforme as regras, mas justamente quando aparece um fiscal, tudo dá errado. Acho que os fiscais sentem o cheiro. Antes de decidirem quem visitar, uma inspiração maligna sopra em seus ouvidos, dizendo: “vai em tal lugar, lá você vai achar algo errado.” É uma espécie de “vide e vede” às avessas.

Enquanto as baratas tomavam conta do restaurante, eu procurava o portão do inferno do qual elas estavam saindo. Encontrei uma das fossas abertas. Alguém havia feito aquilo de propósito, quando viu que se tratava de um fiscal visitando o restaurante. Quem? Fechei a tampa e voltei para dar explicações ao fiscal. Ele não quis ouvir.

– Seu restaurante ficará interditado até segunda ordem, senhor Alexandre.

Não tive direito nem de defesa.

– O mundo é injusto! – comecei a gritar. – Está cheio de filhos da puta! Quem foi o desgraçado que fez isso contra mim? Vamos! manifeste-se, demônio!

Carlos Alberto, o chefe de cozinha, manifestou-se. Abrira a fossa porque já estava de saco cheio comigo por conta desta minha paranoia com a limpeza, interrompendo seu trabalho constantemente por coisas miúdas, irrelevantes.

Olhei bem para o maldito. Era um gordo que usava uma barbicha horrível. Sempre achei a barbicha dele horrível, mas nunca falei para não ganhar um inimigo.

Fui até meu escritório, peguei meu revólver, voltei e apontei para ele. Disse-lhe:

– Agora você vai dançar, filho de uma puta! – E dei vários tiros no chão.

Ele dançou.

Quando a munição do revólver acabou, veio para cima de mim. Mas eu estava com tanto ódio deste filho de uma puta que acabei lhe dando uma surra que certamente ele não tomou nem quando era criança. Para não apanhar mais, o infeliz saiu da cozinha, passou pelo salão e ficou lá fora, escorado nos demais funcionários.

Fui até a despensa, peguei um litro de álcool e joguei no chão da cozinha. Com fósforos, ateei fogo. Em menos de um minuto um fogaréu imenso se fez. Peguei outra garrafa de álcool e esvaziei-a no salão. Depois fui para o meu escritório, fechei a porta e recarreguei com calma meu revólver. Tentei dar um tiro no ouvido, mas não consegui. A fumaça foi entrando pela fresta da porta. Fui ficando sem ar e desmaiei, sem conseguir dar um fim na minha vida maldita.

 

***

 

Acordei no hospital. Perguntaram por que eu havia feito o que fiz e eu falei que a vida é injusta: você faz tudo certo, mas quando chega um maldito de um fiscal, tudo dá errado. Contei também que quando era garçom eu trabalhava dedicadamente, mas, quando fazia uma coisinha errada qualquer, como por exemplo confundir o pedido de uma mesa ou de outra, sempre aparecia ou o maître ou o meu patrão para me chamar a atenção na frente de todos. Juntei dinheiro e montei um restaurante, acreditando que nunca mais alguém iria me foder.

Ilusão. Tudo não passou de uma ilusão. A vida é uma ilusão. Uma grande ilusão, sabiam?

Recebi alta dias depois. Fui para casa. Eu tinha uma boa poupança e pude ficar dois meses sem sair. A minha única distração era navegar na internet. Num dia vi um edital para fiscais de bares e restaurante – me inscrevi e passei no concurso. Hoje faço o que fizeram comigo. A vida é assim: fazemos aos outros o que fazem conosco. Como fiscal, desenvolvi o faro maldito. Sou um sujeito inspirado pelo mal. Quando vejo algo de errado, multo. Quando vejo algo de muito errado, interdito. Fecho mesmo! Não tenho dó – nenhum fiscal teria de mim.

Glauber Da Rocha, in: Com Os Dentes Que Ainda Me Restam

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