quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA, DE GABRIEL GARCIA MÁRQUEZ


Crônica De Uma Morte Anunciada é o décimo quarto livro de Gabriel García Márquez. Foi publicado em 1981, um ano antes de ele receber o prêmio Nobel de Literatura. Uma obra de quinta grandeza, dessas que você me em dois dias, fisgado por um forte enigma.
É interessante notar que Gabriel García Márquez não faz mistério sobre o que vai acontecer no seu romance. Ele já começa anunciando que o personagem principal vai morrer: "no dia em que o matariam Santiago Nasar, ele levantou-se às 5:30 da manhã para esperar um navio que chegava o bispo”.
O enigma, portanto, não está no suspense do que vai acontecer, mas muito mais porque as coisas aconteceram como aconteceram: Por que ninguém avisou Santiago Nasar que os irmãos Vicários iriam matá-lo? Por que Ângela Vicário disse que foi Santiago Nasar quem a desflorou? Por não ser mais virgem, seu esposo a devolveu à família, levando os irmãos Vícários a matar Santiago Vicário para honrar a família.
São perguntas que talvez não tem respostas, que talvez não precisam ser respondidas, mas que nos levam até o fim da narrativa, nos faz voltar ao livro mais uma vez, duas, três, quantas vezes preciso for. Sem dúvida alguma, uma das maiores obras literárias de nossa época, que merece a nossa leitura.

ÓDIO DO SHOPPING


 

Meu psicólogo falava que meu problema era fobia social, mas sabia que não era: o que eu tinha era ódio do shopping. Odiava ver aquelas lojas grã-finas, a praça de alimentação, os fast foods da vida – a única coisa que não odiava era o cinema, mesmo com seus ingressos caros e os filmes hollywoodianos ocupando os cartazes em destaque.

Na verdade, odiava o shopping não apenas por ser um lugar infestado de lojas com nomes em inglês, impondo suas verdades e seus costumes na gente, mas pelo efeito que ele causa nas pessoas: qualquer pé-rapado, ao pisar num lugar impuro desses, assume um ar arrogante, superior, como se fosse o dono do mundo. Dificilmente vemos alguém manter a humildade ao entrar e sair. Até muitos velhinhos pés-rapados, que eu sei de ver pelas ruas do bairro, contando trocados para o café, assumem ares poderosos, como se não fossem morrer a qualquer momento, na frente dos outros, da forma mais vergonhosa e desamparada possível.

Não, não era fobia social nem complexo de inferioridade que eu tinha: o que eu tinha era ódio, um ódio mortal do shopping. De todos os shoppings do mundo, mas principalmente desse em que trabalhava.

Eu trabalhava numa loja de roupas de uma grife mundialmente famosa. Era uma grife de roupas para o público adolescente e, por essa razão, só contratava jovens. Ganhava o salário, comissão e mais um dinheiro das roupas que eu roubava. O roubo acontecia da seguinte maneira: eu falava para algum conhecido fazer uma visita à loja, como quem quer comprar ou pesquisar preços. Ele ia, olhava, dizia gostei desta e daquela, saía sem levar nada e eu anotava mentalmente a “encomenda”. Depois roubava as roupas que ele indicava e lhe entregava pela metade do preço...

Graças a Deus, não era somente eu que odiava o shopping: acho que mais da metade de quem trabalhava lá odiava-o também. De todas as pessoas que conhecia, apenas uma amava o shopping: Lorena. Ela era vitrinista de várias lojas ali. Sempre que ela me via, me chamava para conversar, para falar os segredos de seu trabalho. Cada cor que ela usava, cada foco de luz, como cada objeto era exposto na vitrine para atrair um determinado tipo de cliente, de vítima. Eu ouvia Lorena falar e sorria, mas na verdade ficava com raiva, lembrando as vezes em que fui atraído por uma vitrine, por um embuste, quando comprava muito mais pela grife que pela qualidade da roupa. Num dia, a fiz saber que não gostava das explicações dela.

– Odeio o shopping.

– Oi?

– Isso mesmo que você ouviu. Odeio o shopping. Se pudesse, explodia tudo isso aqui.

– Você não está pensando em explodir o shopping, está? – perguntou ela, com um sorriso nervoso.

Lorena era uma morena dos cabelos bem negros e cacheados. Não respondi à sua pergunta, apenas dei as costas e voltei para meu posto. Desde então ela passou a me procurar. Saía uma hora mais cedo que eu, mas me esperava para me dar carona. Não sei por que diabos eu pegava carona com ela. Além de montar vitrine, Lorena era estilista, sonhava com a fama. Por outro lado, ela tinha uma queda para a Filosofia – o que pode até dar fama, mas não dinheiro. Eu a incentivava.

– Mais vale o conhecimento profundo da realidade do que dessa ditadura do desejo chamada “moda”.

– Você acha?

– Sim. E essa ditadura chamada moda é um produto do capitalismo. Você já ouviu falar em Karl Marx, em liberalismo versus capitalismo?

– Já.

“Então. Eu odeio o capitalismo como odeio o shopping.

Lorena achou que eu estava fazendo drama, graça. Abraçou-me e colocou-me dentro de seu carro. Dessa vez ela me levou para seu apartamento. Fomos para a cama. Lorena era magra, quase não tinha seios. Todo volume que ela aparentava ter estava em suas roupas, em seus sutiãs e calcinhas com espumas. Gostei dela mesmo assim, com a sua bunda magra, suas coxas sem carne, com seus seios sem recheio. A partir de então, passamos a ir dia sim, dia não ao seu apartamento. Aos poucos, ela foi amenizando meu ódio ao shopping.

– Por mais que a maioria das lojas seja de procedência norte-americana, olhe o tanto de empregos que elas oferecem; o tanto de trabalhadores que encontram dignidade em suas vidas. Eles podiam estar desempregados, sem dinheiro para pagar suas contas, sem dinheiro para comer e beber.

Por mais que eu achasse que o shopping fosse a negação do Brasil, eu comecei a preferir ver o lado bom do capitalismo que Lorena me mostrava. Isso confortava a minha alma, o meu coração – tudo o que conforta a alma e o coração é mentira, mas só fui ter certeza disso depois. Fui ficando apaixonado por Lorena. Chegávamos uma hora mais cedo para namorarmos num dos bancos do shopping. De vez em quando assistíamos a um filme no cinema, comíamos na praça da alimentação. Eu só lamentava não ter um motel no shopping, quando às vezes sentia tanto tesão e não podia fazer nada.

Aos poucos, fui mudando meus conceitos. Agora achava a vida bela, magnífica. Lorena percebeu que eu estava ficando apaixonado por ela, teve medo, foi se afastando. Num dia, rompeu a nossa relação. Voltei a odiar o shopping, o ser humano, a vida, tudo.

– Eu vou explodir o shopping e a culpa será toda tua – disse quando passava por ela em uma das vitrines que criou.

Até então pensava que poderia tê-la de volta, que seu coração iria amansar, que Lorena, mais cedo ou mais tarde, iria acabar sentindo a minha falta. Só que não. Um mês depois a vi abraçada com o dono de uma loja, um empresário metido a besta que se achava superior a Deus. Me aborreci: é esse o seu maior objetivo na vida, um dono de loja?, me perguntava. Lorena não passava de um produto na vitrine dele, alguém que seria trocado por um modelo novo assim que se desgastasse. Tem como não odiar o shopping? Lorena era a prova viva de que um lugar impuro como esse não vende só roupas, vende almas. E a alma da Lorena estava com o lance mais alto...

Fui ter com ela. Chegando na loja, vi ela montando a vitrine. Queria conversar com ela numa boa, mas acabou dando em discussão. Transbordei em cima dela toda a raiva que eu guardava do shopping, do capitalismo e da vida.

“Qual é a diferença entre você e tudo isso aqui? Veja, você está embalada, não percebe?”

“Saia daqui, seu louco!”, assustada.

“Eu te amo...”

Ela me olhou atravessada:

“Não, não.  Você não me ama. Você ama esse seu ódio. E eu me cansei de competir com ele. Agora, se não for pedir muito, me deixe trabalhar, ok? Tenho mais o que fazer...”

Descontente, disse:

– Eu devia era acabar com esse lugar! Explodir tudo! Queimar até o chão!

A minha voz ecoou, clientes e outros vendedores pararam para olhar. Lorena, que podia ficar quieta e numa boa, preferiu gritar para todo mundo ouvir:

– Estão ouvindo isso? Ele vai explodir o shopping!

Perdi o controle. Quando vi, estava com a minha mão em seu pescoço. Outros vendedores da loja me imobilizaram, chamaram os guardas, que chamaram a polícia. Lorena, enquanto isso, não parava de falar para todo mundo ouvir que eu era um punk revoltado que tinha ameaçado explodir o shopping.

Fizeram uma busca, checaram meu armário e a área de funcionários. Não encontraram bomba nenhuma, é claro. Mas, fiz a ameaça, e em público, já era o suficiente.

“Como é o seu nome?”, perguntou-me o policial.

– Paulo Hilbert.

– Paulo Hilbert, quantos anos você tem?

– Dezessete anos.

– Dezessete anos e já com ódio de tudo? Vai nos acompanhar tranquilamente?

– Sim.

– Tirem-lhe as algemas.

Tiraram as algemas e fui com os policiais à delegacia. Meia hora depois meu pai chegou e começou a me bater na frente do delegado. Nunca meu pai me bateu tão forte como dessa vez, e teria me matado se os policiais não o tivessem tirado de cima de mim. Afastado, perguntou-me por que havia feito aquilo. O delegado me olhou. Disse-lhes o motivo.

– Por causa de uma mulher que você chama de piranha?

– Eu a amo.

Logicamente não fui preso, mas fui obrigado a cumprir assistência social. Meu pai me obrigou a queimar todas as minhas roupas pretas, a jogar fora os 21 piercings que usava pelo corpo. Proibiu-me de ouvir rock e punk, levou-me para servir ao Senhor. Me converti e conheci uma garota que me fez esquecer Lorena. Curei-me. Entretanto, não ponho meus pés num shopping por nada neste mundo: eu ainda tenho um grande ódio do shopping. Isso, nem o Senhor conseguiu tirar de mim.

 

De: Com Os Dentes Que Ainda Me Restam




ESCRITOR

anotação para o conto que pode ser chamado de: o segundo andar?

 "O fulano só fala com a gente do segundo andar", ouvi alguém dizer.  Imediatamente, me veio uma história para contar: a de uma mu...