Como vencer na vida
A fossa lá de casa entupiu e eu, único desempregado em
casa, tive que resolver o problema. Com muita força tirei a tampa da fossa,
peguei um arame e comecei a movimentá-lo para frente e para trás. Nesse
processo todo acabei engolindo merda. Passei a camisa na boca, cuspi, tentando
me livrar daquele gosto horrível. Mas não teve jeito: uma vez que você acaba
engolindo merda, o paladar fica impregnado por um bom tempo; e por mais que
você cuspa, a impressão do gosto fica gravada na gente como que para sempre.
Desentupi. Contei meu feito para um vizinho, que
passou a me indicar para a vizinhança quando um e outro vizinho precisavam
desentupir a fossa de casa. De repente, veio gente de tudo quanto é buraco
contratar meus serviços. Como estava desempregado, não pude recusar e comecei a
ganhar dinheiro desentupindo fossa. Minha mãe, que viu meu sofrimento para me
formar na faculdade de administração de empresas, me falava para parar.
– Não posso, mãe.
Mãe é sempre uma tentação na vida da gente: a
dificuldade, para elas, é algo que não compensa superar. Enquanto desentupia
fossas, deixava meus currículos nas empresas, conversava com os empresários,
ouvia promessas de que iriam me ligar. No entanto, cadê que me ligavam? Eu
ficava enfezado, mais nervoso que um homem sem amor. Nas minhas orações, eu
blasfemava.
– É isso que o Senhor quer para o seu filho, viver na
merda? Se sim, até quando? Para sempre? Que tipo de Deus é o Senhor? Um Deus
das desgraças? Que diabo eu fiz para Ti?
Deus parecia surdo, cego e mudo. E eu continuava na
merda, vivendo da merda, sonhando com a merda.
Quando vi, estava parecido com esses sujeitos que
trabalham em oficinas mecânicas em beira de esquina, desses que andam sempre
sujo, fedendo, com cigarro paraguaio na boca, encardido. Me transformei num
miserável, isso sim.
E sem mulher. O cheiro de esgoto e cloro não perdiam
para perfume nenhum. O fedor era como uma nuvem suja me acompanhando. Melhor:
uma barreira invisível que elas percebiam. Você sabe, as pessoas se desviam da
parte podre da vida, por isso não desentopem seus próprios esgotos. E eu era a
personificação disto – qual mulher iria querer um homem que fede à merda a
metros de distância?
Fui ficando chateado com a vida. Mas o que me fez
mesmo tomar a melhor decisão da minha existência foi meus parentes. Passar os
finais de semana na casa de meu avô tornou-se uma tortura para mim. Ele mesmo
era o primeiro, que me olhava com amargura. Na época, eu não conseguia entender
que ele queria o meu bem. Do jeito dele, é claro. Mas desejava o meu bem. Não
queria que meus anos de sacrifício fossem perdidos assim. Do seu jeito,
resmungava:
“Um homem diplomado fedendo a esgoto é o fim...”
Alguns tios, primos e até mesmo meus sobrinhos não
tinham respeito algum por mim. Certa vez, um deles, que mal sabia falar, me
disse:
– Você é um derrotado, tio João.
– O quê?!
– Um derrotado.
– Quem disse isso para você? – perguntei, embasbacado.
– Meu pai – respondeu o menino.
Guardei bem guardada essa ofensa. Por vários dias ela
ficou cozinhando no meu udurme. Você é um derrotado, ouvia o meu sobrinho dizer
a quase todo momento, sobretudo diante dos esgotos mais difíceis de desentupir.
Era como um veneno, mas que não mata. Como não me matava, me fortalecia. Já vi
uma frase que dizia assim: o que não me mata, me fortalece. Me perguntei: estou
na merda ou diante de uma grande oportunidade na vida?
Resolvi sair dela sem esperar um emprego como
administrador, e parei de gastar qualquer centavo à toa. Até algumas coisas que
eu achava que merecia, como comer uma pizza ou beber cerveja no fim de semana,
deixei de fazer. E juntava cada centavo como quem junta a própria dignidade.
Além disso, estudava sobre o negócio de esgotos, colocava no papel o
investimento, calculava lucros, perseguia as falhas dos concorrentes.
De dia, desentupia fossas, de noite, planejava. Três
anos depois, fundei a minha companhia de esgotos. Prosperei, comprei carro,
casa, viajei, conheci tudo quanto é tipo de mulher, de vinho – de Cabernet
Sauvignon ao Vinho do Porto. Fiz amizades com quem jamais imaginava que um dia
iria fazer, me tornei amigo de alguns homens mais ricos do Brasil e do mundo.
Fui feliz e casei.
Tive dois filhos. E por mais que eu tenha dinheiro
para fazer o que quiser, inclusive rasgar e jogar no lixo, não facilito nenhum
pouco a vida para eles. Não dou nada de graça. Nem empresto dinheiro, mas
ofereço oportunidades.
Primeiro, as ruins, que é trabalhar como todos os
desentupidores de fossa de minha companhia, a fim de comerem merda que nem o
pai e aprender a dar o valor no meu e no dinheiro deles; depois, dou as
oportunidades boas. Se trabalham, ganham. Se não trabalham, não ganham.
E assim é a vida. Nada cai do céu. O segredo de como
vencer na vida é esse. Encarar de frente
o que há de pior, pegar o que ele nos oferece – mesmo que seja apenas a força
para não se afogar – e usar isso como alicerce para construir algo melhor. O
segredo não é fugir do cheiro, é aprender a transformá-lo em combustível... Ou não
é?
Glauber da Rocha - escritor
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