sábado, 3 de janeiro de 2026

Como vencer na vida - conto

 

Como vencer na vida

 

A fossa lá de casa entupiu e eu, único desempregado em casa, tive que resolver o problema. Com muita força tirei a tampa da fossa, peguei um arame e comecei a movimentá-lo para frente e para trás. Nesse processo todo acabei engolindo merda. Passei a camisa na boca, cuspi, tentando me livrar daquele gosto horrível. Mas não teve jeito: uma vez que você acaba engolindo merda, o paladar fica impregnado por um bom tempo; e por mais que você cuspa, a impressão do gosto fica gravada na gente como que para sempre.

Desentupi. Contei meu feito para um vizinho, que passou a me indicar para a vizinhança quando um e outro vizinho precisavam desentupir a fossa de casa. De repente, veio gente de tudo quanto é buraco contratar meus serviços. Como estava desempregado, não pude recusar e comecei a ganhar dinheiro desentupindo fossa. Minha mãe, que viu meu sofrimento para me formar na faculdade de administração de empresas, me falava para parar.

– Não posso, mãe.

Mãe é sempre uma tentação na vida da gente: a dificuldade, para elas, é algo que não compensa superar. Enquanto desentupia fossas, deixava meus currículos nas empresas, conversava com os empresários, ouvia promessas de que iriam me ligar. No entanto, cadê que me ligavam? Eu ficava enfezado, mais nervoso que um homem sem amor. Nas minhas orações, eu blasfemava.

– É isso que o Senhor quer para o seu filho, viver na merda? Se sim, até quando? Para sempre? Que tipo de Deus é o Senhor? Um Deus das desgraças? Que diabo eu fiz para Ti?

Deus parecia surdo, cego e mudo. E eu continuava na merda, vivendo da merda, sonhando com a merda.

Quando vi, estava parecido com esses sujeitos que trabalham em oficinas mecânicas em beira de esquina, desses que andam sempre sujo, fedendo, com cigarro paraguaio na boca, encardido. Me transformei num miserável, isso sim.

E sem mulher. O cheiro de esgoto e cloro não perdiam para perfume nenhum. O fedor era como uma nuvem suja me acompanhando. Melhor: uma barreira invisível que elas percebiam. Você sabe, as pessoas se desviam da parte podre da vida, por isso não desentopem seus próprios esgotos. E eu era a personificação disto – qual mulher iria querer um homem que fede à merda a metros de distância?

Fui ficando chateado com a vida. Mas o que me fez mesmo tomar a melhor decisão da minha existência foi meus parentes. Passar os finais de semana na casa de meu avô tornou-se uma tortura para mim. Ele mesmo era o primeiro, que me olhava com amargura. Na época, eu não conseguia entender que ele queria o meu bem. Do jeito dele, é claro. Mas desejava o meu bem. Não queria que meus anos de sacrifício fossem perdidos assim. Do seu jeito, resmungava:

“Um homem diplomado fedendo a esgoto é o fim...”

Alguns tios, primos e até mesmo meus sobrinhos não tinham respeito algum por mim. Certa vez, um deles, que mal sabia falar, me disse:

– Você é um derrotado, tio João.

– O quê?!

– Um derrotado.

– Quem disse isso para você? – perguntei, embasbacado.

– Meu pai – respondeu o menino.

Guardei bem guardada essa ofensa. Por vários dias ela ficou cozinhando no meu udurme. Você é um derrotado, ouvia o meu sobrinho dizer a quase todo momento, sobretudo diante dos esgotos mais difíceis de desentupir. Era como um veneno, mas que não mata. Como não me matava, me fortalecia. Já vi uma frase que dizia assim: o que não me mata, me fortalece. Me perguntei: estou na merda ou diante de uma grande oportunidade na vida?

Resolvi sair dela sem esperar um emprego como administrador, e parei de gastar qualquer centavo à toa. Até algumas coisas que eu achava que merecia, como comer uma pizza ou beber cerveja no fim de semana, deixei de fazer. E juntava cada centavo como quem junta a própria dignidade. Além disso, estudava sobre o negócio de esgotos, colocava no papel o investimento, calculava lucros, perseguia as falhas dos concorrentes.

De dia, desentupia fossas, de noite, planejava. Três anos depois, fundei a minha companhia de esgotos. Prosperei, comprei carro, casa, viajei, conheci tudo quanto é tipo de mulher, de vinho – de Cabernet Sauvignon ao Vinho do Porto. Fiz amizades com quem jamais imaginava que um dia iria fazer, me tornei amigo de alguns homens mais ricos do Brasil e do mundo. Fui feliz e casei.

Tive dois filhos. E por mais que eu tenha dinheiro para fazer o que quiser, inclusive rasgar e jogar no lixo, não facilito nenhum pouco a vida para eles. Não dou nada de graça. Nem empresto dinheiro, mas ofereço oportunidades.

Primeiro, as ruins, que é trabalhar como todos os desentupidores de fossa de minha companhia, a fim de comerem merda que nem o pai e aprender a dar o valor no meu e no dinheiro deles; depois, dou as oportunidades boas. Se trabalham, ganham. Se não trabalham, não ganham.

E assim é a vida. Nada cai do céu. O segredo de como vencer na vida é esse.  Encarar de frente o que há de pior, pegar o que ele nos oferece – mesmo que seja apenas a força para não se afogar – e usar isso como alicerce para construir algo melhor. O segredo não é fugir do cheiro, é aprender a transformá-lo em combustível... Ou não é?


Glauber da Rocha - escritor

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