quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

A LOIRA DO 74

 

A loira do 74

 

Deixei o Silvio e o Gimenez subirem lá no terraço do prédio para falar com o suicida. Enquanto eles tentavam convencê-lo a não pular, eu ficaria ali no meio do bolo de gente que se fez para ver qual seria a sua decisão, enquanto aguardava os bombeiros e ajudava manejar os curiosos. (Enquanto eles tentavam convencê-lo a não pular, eu ficaria ali embaixo aguardando os bombeiros para ajudá-los a manejar os curiosos, abrindo espaço para eles armarem a cama elástica). Eu tinha um binóculo. O suicida era um homem novo, bonito, classe média. Olhei para um magrinho de gravata que estava ao meu lado e perguntei se ele sabia o motivo pelo qual o homem queria pular.

– Não sei, doutor – disse sem desviar os olhos do alto do prédio. – O pessoal do condomínio comenta que foi uma separação. A mulher não superou.

Um velho, encostado na parede com as mãos nos bolsos, cuspiu no chão antes de falar.

– Separação? O buraco é mais embaixo. Dizem que ele ficou broxa, de uma hora para outra...

A gorducha ao meu lado sussurrou para a amiga, mas eu consegui ouvir:

– Foi a loira do 74. Fez um trabalho. Coitado, preferiu pular.

Fiquei pensando no que eu faria se ficasse impotente: me jogaria também do décimo andar? Como eu já passava dos quarenta e nunca havia brochado nem uma vez sequer na vida, não fiquei meditando muito sobre isso. Na verdade, não conseguia compreender como pode acontecer essa desgraça com um homem: eu ficava com dó só de ouvir casos assim. Saquei do bolso o câmbio e perguntei como estava lá em cima.

– Estamos tentando o diálogo, Silva.

– Ok.

Duas mulheres chegaram perto de mim. Falavam da loira do 74 com um preconceito sem igual.

“Eu, hein? Morro de medo dessa macumbeira...”

Eu não acredito nessas coisas, mas também não duvido. Olhei em volta, quase todo mundo olhando para cima, na expectativa. E esses bombeiros que não chegam?, perguntei para mim mesmo. De repente o homem resolveu pular, de ponta-cabeça. Cena feia. Esparramou miolos para todos os lados. A ambulância veio, recolheu o corpo e o bolo de gente se desfez.

 

***

 

Voltei pensativo para a delegacia. Uma pessoa dá fim à vida por conta de conflitos existenciais, de uma depressão, de uma tragédia, de um sofrimento e até mesmo por uma questão de honra – Soren Kierkgaard diz que a pessoa se mata porque não consegue suportar a angústia. Dei o caso por encerrado.

Dias depois, a pergunta se ele havia realmente sido enfeitiçado ainda não queria calar, e eu resolvi ir ao prédio onde ele morava. Após apertar o interfone no portão, ouvi o porteiro perguntando o que eu queria.

– Como é o seu nome?

– Ronaldo.

– Ronaldo, preciso fazer uma vistoria no apartamento do senhor Luís C. Ribeiro, o homem que se jogou do décimo andar.

– Vistoria?

– Sim, sou delegado de polícia.

– Pode mostrar a sua identificação, por favor?

Mostrei para ele meu distintivo, a porta se abriu. Fui até à guarita.

– Ele morava no 73. O elevador é por aqui – disse ele, indo em direção ao elevador.

Acompanhei-o. Graças a Deus o elevador estava no primeiro andar. Entrei, apertei o número 7, o elevador subiu. Dona Maria, mãe do Luís C. Ribeiro, me atendeu. Era uma senhora dos seus setenta anos de idade, cabelos brancos, olhos miúdos, simpática.

– Sou o delegado Silva, preciso fazer uma vistoria no apartamento.

– Por favor, queira entrar.

– Eu sinto muito pela morte de seu filho. A senhora está melhor?

– Vou caminhando.

Pedi à dona Maria que me levasse ao quarto de Luís. O quarto dele era todo organizado. Perguntei-lhe se ele era sempre assim e ela me disse que Luís era a organização em pessoa.

– Administrador de empresas, virginiano, muito inteligente, não consigo compreender porque ele fez isso...

– Acho que nem Deus entende essas coisas...

Olhei seu guarda-roupas, suas roupas impecáveis, sapatos lustrosos. Enquanto isso, conversava com a dona Maria. Era viúva, professora aposentada, mas ia voltar a estudar, queria agora compreender, através de um mestrado em Psicologia ou Filosofia, o suicídio. Perguntei pela carteira dele e ela me mostrou onde estava no guarda-roupas. Peguei a carteira, abri, vi um cartão de visitas de um psicólogo: Jaime Pereira dos Santos. É engraçado, nenhum psicólogo tem nome de psicólogo, tal como têm os policiais e os travestis, que pelo nome já dá para saber o que o sujeito faz da vida – como por exemplo Solano, Silva, Kimberly e Scarlet. Eu comecei a pensar como seria um nome de psicólogo típico, mas desisti rapidamente.

– Era o que eu precisava – eu disse.

Pedi para ela anotar o número de meu telefone, se precisasse de alguém para conversar ou para outra coisa qualquer, poderia me ligar a qualquer dia e qualquer horário. Lá fora, passando a guarita, saquei o aparelho celular do bolso e liguei para o tal Jaime Pereira dos Santos. Ele me atendeu, me identifiquei, falei o motivo da minha ligação e marcamos um encontro em seu consultório mesmo.

Jaime era um homem de cinquenta anos, moreno, careca, usava óculos de grau com a armação branca. Pediu-me para entrar e sentar-me numa poltrona que ficava de frente para a dele. Sentei. Me conduzia claramente como se eu fosse um paciente. Perguntei-lhe se ele sabia por qual motivo Luís C. Ribeiro havia tirado a própria vida.

– A disfunção erétil, talvez.

– Por causa de uma depressão?

– Não. A disfunção erétil foi parte importante do que o levou a depressão...

– A disfunção era por causas fisiológicas?

– Não, psicológicas. Ele fez exames médicos e tudo, não deu nada.

– Ele falou sobre alguma mulher?

– Sim. Ele havia se separado de uma mulher, mas a mulher não aceitava, fazia um inferno na vida dele.

– Você sabe o nome dela?

– Eu devo ter anotado no histórico dele. Espere aí – disse ele, levantando-se.

Foi até a sua mesa e pegou uma agenda.

– Está aqui. O nome dela é Patrícia.

– Ele chegou a comentar que essa Patrícia fez feitiço para ele ficar brocha, quer dizer, impotente?

– Não. O senhor acredita nessas coisas?

– Não acredito, mas também não duvido – eu disse, saindo.

Voltei ao prédio onde Luís morava. Falei com o porteiro, peguei o elevador, parei no sétimo andar e apertei a campainha do 74. Enquanto aguardava ser atendido, perguntei-me por que eu era assim, tão curioso, e não tinha uma boa resposta. A experiência policial já devia ter me mostrado que isso não acaba bem.

Uma loira muito bonita me atendeu, usando um short bem curto e uma blusinha branca. Ela estava sem sutiã e dava para ver a marca dos bicos de seus seios. Identifiquei-me e ela pediu que eu entrasse. Sentei-me num dos sofás, olhei para o interior do apartamento para verificar se havia mais alguém e fui logo ao assunto:

– Dizem que você fez feitiço para o Luís ficar brocha...

– Eu? Nossa, por que esse povo não vai cuidar da vida deles?

– Mas você fez?

– De jeito nenhum...

– Mas você é macumbeira?

– Macumbeira é quem toca macumba, um instrumento musical que nem existe mais...

– E o que você é?

– Sou médium. Mas no meu terreiro só se faz o Bem. Lá não fazem amarrações ou feitiços do tipo...

– Entendi...

Se ela era feiticeira ou não, agora pouco me importava mais: ela era irresistivelmente linda. Olhei mais uma vez para seus seios. Depois, falei sobre o Luís C. Ribeiro, e seus olhos derramaram lágrimas estranhamente súbitas. Tirei um lenço do meu paletó e dei para ela enxugar o rosto. Patrícia tinha amado perdidamente Luís C. Ribeiro, fazia tudo por ele, é engraçado como entregamos nossos corações para pessoas que não gostam nem um pouco da gente, o senhor não acha?

– Agora estou aqui, de luto, tomando antidepressivos, sem coragem de sair casa.

Patrícia havia feito um acordo na empresa em que trabalhava e começaria a viver do seu seguro de desemprego. Antes de sair, pedi o número de seu telefone. Enquanto ela falava e eu gravava na agenda de contatos do meu celular, espreitava seus seios rosados. Será que ela percebeu e se perguntou se este suposto policial se tratava de um tarado?

Dias depois liguei para ela. Patrícia não queria sair, falei que era só uma volta ali perto do prédio, que ela precisava andar, tomar sol. Patrícia deixou-se convencer e passamos a passear quase todos os dias ali perto do prédio dela: Patrícia foi se curando, ria mais – não há nada melhor que o sol para curar a depressão, no meu entendimento.

Fomos para o quarto dela. No quarto tirei a sua roupa, seus seios eram os mais lindos que tinha visto em toda a minha vida, e seu corpo inteiro acompanhava-os harmoniosamente. Tirei a minha roupa e joguei-a na cama. Patrícia pediu-me para colocar preservativo. Eu não tinha na carteira, mas havia alguns na estante da sala, numa das gavetas, ela falou. Fui, de pau em riste, e voltei com o pau ainda em pé. Ela estava na cama, pernas abertas. Pedi para ela esperar um pouco e fui ao banheiro. Olhei-me no espelho, me admirando:

“Eu jamais vou ficar impotente!”, declarei, acho que não em voz alta.

Havia uma toalha úmida pendurada na porta. Peguei essa toalha. Era uma toalha bem pesada. Coloquei-a sobre o pau. O pau aguentou firme, não esmoreceu em nenhum momento. Eu estava como na adolescência. Tirei a toalha de cima do pau e voltei para o quarto, subindo na cama. Entrei nela, ela gemeu, gritou e chamou por Jesus, Maria e José!

Começamos a namorar. Nos primeiros dias, sentia bem com a sua devoção. Ela me ligava para saber se eu estava bem, se havia almoçado, se não tinha esquecido do casaco de frio. Mas depois o seu cuidado começou a ficar ácido. Num dia, uma conhecida me cumprimentou na rua. Patrícia, com isso, ficou muda o caminho de volta todo. Em seu apartamento, disse:

“É incrível como mulheres feias se acham no direito de ser familiares...”

Outra vez, uma policial me mandou um recado, num sábado.

“O que essa vadia quer, te perturbando no fim de semana?”

Brinquei com Patrícia, olha o ciúme doentio, falei. Mas não resolveu, e entendi porque Luís terminou com ela.

Rompi nosso namoro. Mas foi só romper nosso namoro para começar a brochar. Primeiro com uma, depois com outra e finalmente com a terceira. Nem me masturbando. Fiquei preocupado, procurei um médico, fiz exames, não deu nada. O médico me indicou um psiquiatra, que me deu remédios tarja-preta e me indicou um psicólogo. O psicólogo disse que tudo era coisa da minha cabeça. Eu precisava resgatar a minha autoestima e autoconfiança, que tudo aconteceria naturalmente. Não consegui: saí com uma, saí com outra, brochava miseravelmente.

Eu não falei que morava no sétimo andar de um prédio, falei?

O prédio onde eu morava tinha dez andares. Subi no terraço decidido a me jogar. Uma pessoa lá embaixo meu viu, sacou o celular e ligou para a polícia. Como eu me demorava a decidir, a polícia chegou em tempo. Olhei lá embaixo e vi um bolo enorme de gente: por que os curiosos são tão rápidos? Voltei. Aguardei mais um pouco, respirei fundo e vi que era hora de pular. Mas, quando estava pronto para o pulo fatal, ouvi meu nome. Olhei para trás e vi justamente o Silvio e o Gimenez. Falei para eles o motivo pelo qual ia me jogar. Tinha mesmo descoberto que é melhor mesmo morrer do que ficar impotente.

“Silva, desce daí, meu amigo. Para que acabar com a sua vida?”

“Não adianta, Silvio. É melhor morrer do que viver assim.”

Gimenez, com desdém, disse:

“Pensei que você era um delegado de verdade... Te admirava... Mas não passa de um covarde...”

Fiquei puto com ele.

“O que você disse?”

“Isso mesmo que você ouviu... Quer que eu repita?”

“...”

“Sabe de uma coisa? Essa mulher jogou uma praga na sua cabeça. E você acreditou. Vai provar ao mundo que o feitiço dela funciona? Você não é vitima de feitiço, você é cumplice da própria desgraça. Você está fazendo o que ela quer...”

Gimenez tinha razão. Desisti. Quando cheguei lá embaixo, as pessoas bateram palmas para mim, chegaram a me fazer cafunés. O Brasil está melhorando, acho. Dias depois, fui num pai de santo, falei com ele sobre meu problema. Ao me ouvir, disse que dava para desmanchar o trabalho e eu paguei o preço.

O pai de santo passou um ebó no meu corpo. Um ebó é uma limpeza, com ovos, quiabos, pipocas e outros tantos ingredientes, enquanto é rezada uma linda cantiga, em iorubá. Saí mais leve de seu terreiro.

Dias depois conheci Raquel, uma ruiva muito bonita. Levei-a para minha casa. Meu pau endureceu. Antes de entrar nela, fiz o que fiz com Patrícia na primeira vez: fui até à sala, voltei para o banheiro, coloquei uma tolha em cima. Ele continuou de pé, vibrando.

Entrei nela e Raquel gostou, quis namorar comigo. Hoje estou com ela. Eu posso estar cansado, estressado, triste, mas quando chego perto dela eu me animo! Às vezes fazemos mais de três vezes por noite.

Não sei se foi o ebó que o pai de santo passou em mim, porque tudo pode ter sido apenas sugestão: o pai de santo portador de poderes sobrenaturais, as imagens, o ritual, as cantigas, tudo isso pode ter convencido meu subconsciente, curando a minha disfunção erétil de ordem psicológica. Ou não. Talvez o ebó tenha desmanchado o trabalho de Patrícia, talvez os santos tenham me ajudado, afinal de contas. Não acredito, mas também não duvido de nada. A metafísica ou psicologia envolvida não me importa. Meu pau está vivo.

 

 

 


Glauber Da Rocha, in: Com Os Dentes Que Ainda Me Restam

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