O
sol na casa 12
Estava um frio lascado, odeio o frio; quanto mais
frio, mais solitário me sinto. Certa vez, pesquisando sobre astrologia, vi que
nasci com o sol na casa doze, que significa solidão. Sim, eu era um homem
solitário, vivia sozinho em um apartamento deixado por meus pais, não tinha
nada – irmãos, amigos, mulher. Se eu tivesse um treco naquele apartamento, um
mal súbito, certamente morreria sem chance do socorro.
Eu até pensava em falar com o vizinho do lado, dizer
que se ele percebesse algo estranho em meu apartamento, um silêncio fúnebre,
tinha meu alvará verbal para arrombar a porta, melhor!, eu daria uma cópia da
chave para ele. Mas não falava, sempre achei muito humilhante para um homem
dizer a outro que não tem ninguém – ainda mais esse vizinho, que vivia levando
mulheres diferentes para o seu apartamento.
Sou feio, muito feio. Sou gordo, careca e caolho. Sou
moreno. Apesar de careca tenho pelos de sobra por todo o corpo, até no nariz,
até nas orelhas. Eu pensava em me depilar, mas isso seria uma despesa a mais.
Além de feio, gordo, careca e caolho, sou um muxiba avarento: ainda sou? Quando
eu morrer, pouca gente irá ao meu velório, e certamente ninguém visitará meu
túmulo. É a minha sina: nasci com o sol na casa 12. Porque sei que ninguém irá
ao meu velório, quero ser cremado, que joguem as minhas cinzas num lugar
qualquer e esqueçam que um dia existi.
Era sábado. Sábado é dia de namorar. Eu até gostaria
do frio se tivesse uma namorada. O frio não seria nada para mim debaixo de um
cobertor agarrado com uma namorada. Eu ligaria a televisão, colocaria algum
filme no DVD, faria chás, achocolatados, comeríamos biscoitos. Mas eu não tinha
uma namorada, era carente – há homens que sofrem pela falta de uma mulher e há
homens que sofrem pelo excesso, como esse meu vizinho.
Liguei o computador, entrei num site de encontros: o
que é pior, ser sozinho ou a dor de sentir-se sozinho? Ser sozinho dói, é uma
dor constante. A gente se acostuma com a dor, mas tem hora que a dor vence a
gente. E eu estava vencido, com dor, com a dor de ser sozinho.
Dei um olá para todas as mulheres que estavam on-line no site de encontros. Não há
nada mais sem graça para uma mulher que ser abordada por um olá ou um oi na
internet. Pessoalmente, até que vai, e você ainda pode avaliar o sujeito
fisicamente, mas na internet é entediante para a maioria delas. Boa parte dos homens
sem criatividade faz isso. Elas preferem frases, divertidas ou sérias. Tudo,
menos um olá ou um oi. Além de gordo, careca, caolho, muxiba e avarento, eu era
chato também. Talvez burro. Não, talvez não: eu sou burro, definitivamente.
Feio, gordo, careca, caolho, avarento, chato e burro.
Não saber conduzir uma conversa, ou simplesmente
conversar, é ou era outro defeito meu. Uma mulher me respondeu mas eu não soube
conduzir a conversa. Fiz tantas perguntas pessoais... Ninguém gosta de uma
entrevista evasiva de empregos, que foi o que fiz com ela: onde você mora?, com
quem?, qual a sua formação?, o que você faz em dias de folga?, você é
perfeccionista? Juro por Deus que se uma mulher me bombardeasse com perguntas
assim eu a ignoraria completamente, por mais solitário que fosse, por mais
solitário que ainda sou.
Ela fez o mesmo, parou de me responder. Decidi então
sair do site de encontros e entrar em um de pornografia, para me masturbar e
dormir logo depois. Eram quatro horas da tarde, aí tomaria alguns comprimidos e
acordaria só no domingo ao meio-dia... Mas, quando estava saindo do site de
relacionamentos, uma tal de Fernanda me respondeu. Conversamos. De repente, ela
disse:
“Gostei de você... Seu perfil... É diferente. É real.
Você não tenta impressionar com uma foto exibindo os músculos, ou com uma
mentira descarada...”
Que músculos?, pensei comigo.
“Sabe, não sei porque ainda entro aqui... Me cansei de
tantos homens perfeitos. São todos iguais, mentirosos...”
Era um elogio ou desabafo? Uma mulher solitária feito
eu? Fernanda era ruiva, gostei dela, fui me soltando. Até que ela me convidou
para sair. Uma armadilha? Dessas em que uma mulher atrai o homem para
sequestrá-lo ou roubá-lo? O sujeito aceita o encontro e quando se dá conta está
refém de três ou quatro bandidos. Ou não. Talvez ela quisesse apenas um
encontro casual... Eu não podia ser desconfiado de tudo... Aceitei o convite.
Mesmo assim, enquanto dirigia, falava para mim mesmo: “você, além de burro é maluco, você perdeu o juízo...”
Ela me esperava numa esquina. Olhei em volta para ver
se havia algum bandido de tocaia, ou dois ou três. Não havia. Ela usava um
casaco, mas mesmo num frio de lascar estava vestida com uma saia curta, preta,
de couro. Parei o carro e ela entrou, reclamando do frio. Nos seus lábios,
batom bem vermelho, os cílios pintados de preto. Usava um perfume caro, um
amadeirado, creio eu, suspeito, não combinava com a quebrada onde a peguei.
“Meu pai teve um carro igual ao seu, amo este modelo”,
ela disse, falando com um certo nervosismo na voz e alisando o painel com as
mãos.
Porque fiquei vendido diante de sua beleza, senti um
certo orgulho. Mas, num lampejo da razão, voltei a desconfiar: por que ela está
dizendo essas coisas? Como assim, amo este modelo? Ela conhece vários? Olhei
melhor para ela: por que ficou nervosa ao falar? Olhei para as suas mãos, ela
estava tremendo um pouco. Era o frio ou o nervosismo?
“Sério?”
“Sim.”
Acelerei. Fiquei andando sem rumo, conversando com
ela, até Fernanda, como quem não quer nada além de sexo, sugeriu logo um motel.
“Sabe onde tem um?”
Sabia e foi me dando as coordenadas. Enquanto isto,
ela retocava os lábios com batom pelo retrovisor. Chegamos num hotel nem muito
luxuoso nem muito fuleira, mas que iria me levar mais de cem contos. Com minha
cabeça de muxiba, me perguntei por que só o homem que tem que pagar o motel, se
os dois vão foder? Estacionei o carro na
garagem do quarto 61 e entramos. No quarto, ela pediu uma champanhe barata.
“Pode deixar que pago a champanhe, tá?, disse sorrindo
mas só com os lábios.
Acabei sento tocado pela simplicidade, só que é o
seguinte: seus olhos observavam muito, calculavam...
Pedi champanhe para Fernanda e uísque para mim. Não
deu cinco minutos e eles colocaram as bebidas numa banqueta giratória, onde
quem entrega a bebida não consegue ver quem está dentro e vice-versa. Servi
Fernanda e me servi.
“Adoro champanhe...”
Ela tomou um gole e me estendeu o copo. Comecei a beijá-la,
a passar minhas mãos no seu corpo. Fui tirando suas roupas, até ela ficar só de
calcinha e sutiã.
“Tem preservativos?”
Com esta pergunta, desencanei: ela só queria sexo,
mesmo.
“Sim”, eu disse, pegando a carteira no bolso da minha
calça.
Falei que sim e me virei para pegar a carteira no
casaco.
“Vamos brindar?”, ela disse, pegando seu copo com
champanhe.
“Ah, sim, vamos sim. Me desculpa”
“Aos... encontros inesperados...”
“Aos encontros inesperados!
Brindamos, mas seus olhos, havia algo estranho lá.
Ansiedade? Triunfo? O reflexo da minha paranoia? Uma vez um amigo disse nas
redes sociais: seja tudo, menos noiado. Ele era cara que vivia postando frases
assim. Outra vez ele disse: um foda-se bem dado evita anos de terapia. Isto, eu
devia ser um noiado, precisava dar um foda-se. Para não estragar o momento,
peguei meu copo com uísque, brindamos. Nisso, nossos dedos se tocaram, senti-os
um pouco gelados. Levei o uísque à boca, o gosto invadiu o meu ser, e a ultima
coisa que vi foi o copo se estilhaçar no chão...
***
Acordei no hospital. Fernanda tinha levado meu carro.
Os policiais esperaram a minha alta, fui com eles à delegacia registrar o
boletim de ocorrência. Quando acabou, fui para casa de ônibus. Chegando, joguei
no chão alguns pratos, esmurrei a parede e jurei:
“Se eu pegar essa filha da puta eu mato!”
Agora, ia ter que depender de transporte coletivo. No
trabalho, falei que meu carro estava na oficina. Ninguém desconfiou, como iriam
desconfiar do administrador da empresa?
Entrei no site de encontro e o perfil da Fernanda
estava deletado. Passei a semana inteira ligando para a polícia: nada, nenhuma
novidade. Como meu carro não tinha seguro, tive que comprar outro. Dei uma
entrada e parcelei o restante em sessenta vezes. Por onde andava ficava atento
para ver se encontrava Fernanda, para acabar com a raça dela de uma vez por
todas.
Laura – esse era o verdadeiro nome da Fernanda –
finalmente foi presa. Era uma bandida, uma estelionatária do amor, havia
enganado mais de vinte otários feito eu. Não conseguiram encontrar meu carro,
que deve estar rodando por aí pelas ruas de algum país vizinho.
Fui no julgamento. Fiquei esperando por ela no
corredor. Quando a vi, parece que ela falou ao me ver: você acha que iria sair
com um cara feio feito você? E ainda por cima um gordo, careca e caolho? Na
verdade, ela nem me reconheceu. E quando estava passando por mim, voei em cima
dela e cravei as minhas duas mãos em seu pescoço. O policial que carregava ela
tentou me puxar, mas a minha ira foi muito mais superior. Ele começou a gritar,
um monte de gente começou a gritar. Mais outros policiais correram em nossa
direção. Mas eu fui muito mais forte e mais rápido. Laura foi perdendo a força
até ficar com os olhos totalmente alheios. E algo ainda mais feio do que eu já
conhecia do lado de fora, lá dentro de mim, sorria.
Glauber Da Rocha, em: Com Os Dentes Que Ainda Me Restam
Nenhum comentário:
Postar um comentário