segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Com os dentes que ainda me restam



A vida foi tirando meus dentes, aos poucos, um por um, dois por dois, três por três. Eles, tão brancos antes, tornaram-se amarelos – amarelos por fora e negros por dentro, nos buracos – de tanto cigarro, que muito fumei e ainda fumo, com gosto.

A bebida ajudou também, não somente enfraquecendo-os, mas me colocando em confusões nas quais somente eu apanhei; dando conta, depois, nos hospitais, a falta de dois ou três deles. Hoje, lembrando desses fatos, me pergunto: valeu à pena ter brigado por mulheres que nem lembro mais o nome?

Da primeira vez eu estava na zona, acreditando em tudo o que a puta me dizia – seria ela espanhola de verdade ou não passava de uma paraguaia? Nova, não devia ter 30 anos. Eu não tinha interesse algum em levá-la para um dos quartos, mas ela foi chegando, falando coisas excitantes, mostrou os seios nos decotes, colocou a minha mão sobre eles. Perguntei:

– Quanto?

No quarto foi me falando que queria um homem, um namorado, para poder chamá-lo de amor; dormir, todas as noites, abraçadinha... Acabei voltando: o poeta aqui tornou-se seu cliente fiel.

Gostava de ouvir o que ela falava, e acreditava em tudo. Não por ser verdade, mas muito mais porque a minha vida estava tão sem graça que eu precisava acreditar em algo, mesmo que fosse mentira. Eram palavras doces, ternas e às vezes animalescas, excitantes. Ela dizia: meu amor, meu homem, meu animal feroz, vai, vai, vai José!

Vê-la era melhor do que ficar em casa lendo Olavo Bilac, Ferreira Gullar, Leminski e outros poetas que gostava. Era melhor do que escrever poesia. Do que ouvir Fagner e Zé Ramalho.

Num dia, um outro cliente dela arrombou a porta, um homem magro com boné na cabeça, estava bêbado. Veio para cima de mim. Meu pau ainda estava duro. Levantei rapidamente, levei um soco, caí no chão. O sangue ferveu. Me perguntei: por que acreditei nessa mulher?

Levantei de novo e bati nele até ele cair no chão, inconsciente. Quando terminei, pisei no seu pescoço com força: quem ele pensava que era?

A prostituta me segurou para não matá-lo:

– O que é? Você ama ele também? Quantos mais aqui você ama? Todos?

Ela chorou, me envergonhei.

Depois, sentindo a falta de dois dentes da frente, resmunguei:

“Meus dentes....”

Me vesti e saí do quarto. Voltei para a entrada do prostíbulo, para falar com a dona daquele puteiro, perguntar quem ia arcar com as despesas no dentista. A cafetina deu de ombros: que o cara pagasse, ou a puta que estava comigo no quarto.

Olhei para ela e comecei a quebrar tudo o que vi pela frente. Três sujeitos se levantaram para me segurar. Investi contra eles, fui imobilizado. Luzes de sirene surgiram do lado de fora, vindos da rua escura.

– Prendam este vagabundo! – disse a dona do prostíbulo. – Ele quebrou todo meu bar!

Antes de me jogarem no camburão, deram uma cacetada no meu lombo. Na delegacia, tive que contar toda a história para o delegado, que me liberou somente no dia seguinte. Porque agora não tinha os dentes da frente, perdi meu serviço de garçom.

Como já disse, eu era um poeta. Não desses poetas com livros publicados e tudo, mas alguém que lia os grandes poetas e tentava imitá-los a meu modo. Mas, como poesia não compra sapatos (como diz um grande poeta douradense), tive que procurar outro trabalho.

Arranjei um como ajudante de pedreiro e, quando recebi meu primeiro salário, fui ao dentista, fazer o orçamento: eu precisava voltar à minha profissão, ser servente de pedreiro cansa demais. O dentista orçou: três mil barões! Vi que tinha que economizar. A primeira atitude que tomei foi parar de fumar cigarro nacional, e comecei a comprar o paraguaio, que é uma bosta.

– Espanhola ou paraguaia?

Não conseguia juntar dinheiro para arrumar meus dentes, porque acabava caindo nos bares da vida. Desisti. Em vez de lutar, sonhava com o dia em que alguém tivesse pena da minha situação e escrevesse uma carta para esses programas de TV onde o escolhido da vez ganha aquilo que mais sonha.

Num dia, num bar fuleira, desses que o teto é de eternit, o banheiro uma espécie de fossa, uma gorda dos peitos caídos veio para meu lado. Ela não tinha os dois dentes da frente. Eu estava diante da máquina de música, gastando meu dinheiro suado... Bebia uma cerveja atrás da outra e fumava meu cigarro paraguaio. Enquanto isso, ela pagava para ouvir músicas do Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz.

No começo me irritei com ela, mas depois da sétima garrafa já chamava-a de amor, quando dançava coladinho com ela os pagodes.

A cerveja e o pagode fizeram crescer em mim um verso. Pedi uma folha de caderno e uma caneta para a dona do bar, que era gorda também e tinha os peitos enormes – não usava sutiã, só uma camiseta branca e velha, dava para ver os dois bicões dos peitos dela.

Ela pegou o seu caderno onde anotava os fiados e arrancou uma folha. Como a caneta dela ficava amarrada num fio de náilon, tive que escrever ali mesmo sobre seu balcão. Escrevi uns versinhos para a mulher que estava comigo e entreguei para ela ler. Com muita dificuldade, Dinalva, que era semianalfabeta, leu:

 

Mulher faceira

Sabe dançar,

Dance, com alegria,

Até o dia raiar...

 

Ainda na madrugada a dentro, a dona do bar me ofereceu alguns pedaços das cana-de-açúcar que estava comendo num prato. Isso foi logo depois de eu colocar algumas moedas na máquina de música para ouvir Fagner.  Quando eu era criança, meu avô tinha um canavial no sítio dele, que produzia cana-de-açúcar docinha. Mas essas que a dona do bar me ofereceu de graça me pareciam duras e amargas. Era meu paladar e meus dentes? Não quis conformar com ela, o que é dado não pode ser criticado, preferi escrever um poema. Saiu:

 

as canções de Fagner

 

cana amarga

dura

contigo não podem mais os meus dentes

não assobio.

 

arrasto os chinelos

segurando a gorda

enquanto não dói o rim

com sua pedra maldita.

 

o meu fígado já era

as canções de Fagner já não fazem mais tanto sentido:

o que me importa é o bico negro

e grande

desta gorda.

 

olhai as estrelas, dizia um grande poeta.

as canções de Fagner

dos meus olhos

não tiram mais nenhuma gota!

           

Quando o dia raiou, seu ex-marido apareceu. Chegou violento, falou com ela, começaram a discutir. De repente ele deu um murro na cara da Dinalva e ela foi pro chão. Não me segurei, parti para cima dele: homem que bate em mulher merece apanhar para aprender a respeitá-las, a ter respeito por elas. Bati sim; se estou errado, me perdoe. Quando parei de bater no ex-marido dela, acabei me distraindo. Foi quando o desgraçado me acertou em cheio, na boca. Caí no chão, atordoado. Senti vários dentes caírem...

Respirei fundo, puxei força não sei de onde. E, com os dentes que ainda me restam, abocanhei a sua orelha, arrancando-a.

 

Glauber da Rocha, in: Com os Dentes Que Ainda Me Restam (contos, editora oito e meio)

 

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